Um mundo endividado

Henrique Meirelles

A dívida pública do Brasil é equivalente a 82,5% do PIB; o fato de muitos, inclusive ricos, terem relação dívida/PIB em níveis superiores não significa que esteja em melhor situação

Estadão

A dívida pública é uma preocupação imediata para o Brasil, não só pelo seu tamanho, como também por sua trajetória de rápido crescimento nos últimos anos. A questão é internacional. Diversos países ricos, entre as economias mais avançadas, também estão com dívidas altas. Um mundo endividado gera preocupações para o futuro próximo.

Na semana passada, em diferentes ocasiões, o Fundo Monetário Internacional, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Instituto de Finanças Internacionais (IIF) alertaram para o problema da dívida. Só para se ter uma noção, a dívida de todos os países soma US$ 365 trilhões, o equivalente a 310% do PIB mundial.

O problema começa no passado recente. Praticamente todos os países viram suas dívidas crescerem devido ao aumento dos gastos públicos para conter os efeitos da pandemia, entre 2020 e 2022. O volume recuou logo depois, mas voltou a subir recentemente. No mundo todo, elevar gastos públicos é fácil; difícil é frear a tendência e reduzir os gastos depois.

Países como Estados Unidos, Japão, Reino Unido e França têm convivido nos últimos anos com grandes déficits orçamentários e aumento de suas dívidas. Os juros altos para conter a inflação – alimentada por diversos motivos, entre eles o aumento do preço do petróleo devido à guerra de EUA e Israel contra o Irã e o aumento dos gastos fiscais – elevam os gastos com o serviço da dívida. É um quadro negativo para todos.

Os EUA têm uma dívida de US$ 40 trilhões, equivalente a 129% do seu PIB. É uma enormidade, dado o gigantismo do PIB americano. Dívidas altas fazem crescer riscos fiscais. Na semana passada, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou uma nova recompra de títulos de 30 anos para segurar a alta da taxa de juros desses papéis, que está acima de 5%. Detalhe: por motivos óbvios, esses títulos são os mais seguros do mundo.

A última vez que as taxas foram tão altas foi em 2007, um ano antes da maior crise financeira da história recente. Os títulos de 30 anos de seis dos sete países do G-7 estão em seus níveis mais altos em 15 anos. O fato de as taxas estarem tão elevadas mostra o grau de apreensão no mercado.

A dívida pública do Brasil é equivalente a 82,5% do PIB. O fato de muitos países, inclusive ricos, terem uma relação dívida/PIB em níveis superiores não significa que o Brasil esteja em melhor situação. O nível atual é considerado alto para um país emergente. Nesse caso, não é bom estar na mesma situação dos países ricos, pois para o Brasil o custo é maior.

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