A economia brasileira está tendo muitas dificuldades de sair da crise. Um dos fatores que está prejudicando a recuperação da economia é o baixo crescimento da produtividade. Em que medida as mudanças dos preços relativos internacionais podem explicar o baixo crescimento da nossa produtividade? Será que teremos que esperar uma recuperação do preço das commodities para começarmos a retomada? Isso significa que não há nada a fazer para melhorar nossa situação?

A relação entre os preços internacionais e o ciclo econômico nos países em desenvolvimento tem sido analisada já há algum tempo nas pesquisas econômicas. Recentemente, novos estudos têm mostrado também que os resultados eleitorais nesses países dependem muito de fatores que não tem nada a ver com o desempenho do presidente, tais como as taxas de juros internacionais e preços das commodities(1). Além disso, Ricardo Barboza e Daniela Campello publicaram recentemente um artigo nesse jornal mostrando a relação entre o preço das commodities e a flutuação do PIB. Mas o que pode explicar essa relação numa economia fechada como a nossa?

Uma das explicações pode ser a relação entre o comportamento da produtividade do trabalho e os termos de troca (razão entre os preços dos produtos exportados e os importados). A figura (https://valor.globo.com/opiniao/coluna/precos-internacionais-e-produtividade.ghtml), por exemplo, mostra o comportamento da variação anual nos termos de troca e do crescimento da produtividade do trabalho no Brasil entre 1990 e 2017. A correlação entre as duas séries é muito forte. Nos períodos em que os termos de troca aumentaram entre 10% e 15%, a nossa produtividade aumentou entre 4% e 6%. Como os termos de troca são determinados no mercado internacional, parece claro que é o comportamento dos termos de troca que determina o comportamento cíclico da produtividade no Brasil. E a produtividade tem forte relação com a renda familiar per capita.

Se olharmos para períodos mais longos, por exemplo, veremos que entre 1981 e 1990 os termos de troca permaneceram estáveis, a produtividade caiu 10% e a renda ficou estável. Entre 1991 e 2000, os termos de troca aumentaram 22%, a produtividade aumentou 15% e a renda também aumentou 20%. Entre 2001 e 2010, os termos de troca aumentaram 25%, a produtividade aumentou 15% e a renda 32%. Por fim, no período recente (entre 2001 e 2017), os termos de troca caíram 14%, a produtividade caiu 5% e a renda ficou estável. Vale notar que a taxa de crescimento do PIB subestima o crescimento da renda e do bem-estar quando há ganhos nos termos de troca. Mas, o que pode explicar essa relação tão forte?

A melhora nos termos de troca é equivalente a um progresso tecnológico, na medida em que possibilita que a sociedade possa importar mais produtos com o valor que ela exporta, o que aumenta a renda real e o bem-estar. Um dos artigos recentes sobre esse tema, de Luis-Gonzalo Llosa, mostra que, sob certas condições, a redução no preço relativo dos produtos importados aumenta a produtividade das empresas que importam seus insumos, aumentando também seu emprego e investimento(2). Como as firmas são interligadas, esses efeitos são multiplicados, gerando um forte impacto na produtividade agregada. Esse mecanismo é uma possível explicação para a relação entre termos de troca e produtividade ao longo do ciclo econômico.

Mas será então que a elevação dos termos de troca nos anos 2000 explicaria toda a redução da pobreza e da desigualdade ocorrida no Brasil nesse período? Na verdade, a estratégia foi usar os ganhos de renda advindos da melhora nos termos de troca para implementar políticas de redistribuição de renda, como aumentar o valor do salário mínimo. Nos anos 2000, a renda das famílias mais pobres aumentou quase 30%, ao passo que entre as famílias mais ricas não houve crescimento. Assim, há espaço para usar políticas públicas em períodos de crescimento para melhorar o bem-estar dos que mais precisam.

O problema é que quando há uma reversão da conjuntura internacional fica difícil manter essas políticas funcionando. É o que está ocorrendo com o Brasil hoje em dia. Para conseguirmos manter um sistema de bem-estar funcionando a longo prazo, precisaríamos ter crescimento sustentado, menos dependente da conjuntura internacional.

Porém, o Brasil perdeu a capacidade de crescer de forma sustentada desde o início dos anos 1980. Entre 1965 e 1980 (período do “milagre econômico”) o país cresceu através da migração da população do campo (onde se dedicava à agricultura de subsistência) para ocupações mais produtivas nas cidades. Ao mesmo tempo, a população jovem estava crescendo aceleradamente. Agora, com a maior parte da população já vivendo nas cidades e a taxa de crescimento da população jovem diminuindo, nosso crescimento passou a depender do comportamento dos preços internacionais.

O que teríamos que fazer para sair da crise atual? Será que só nos resta sentar e esperar que os termos de troca melhorem? Na verdade, teríamos que reduzir bastante as tarifas de importação e aumentar a inserção das firmas brasileiras nas cadeias globais de valor para termos ganhos equivalentes aos termos de troca e aumentarmos a nossa produtividade. Nós só entramos nessa situação de forte dependência do setor externo porque o Estado brasileiro, assim como em vários outros países emergentes, sempre protegeu excessivamente as grandes empresas nacionais.

Além disso, essas empresas sempre contaram com uma grande massa de trabalhadores pouco escolarizados, que ganhavam salários muito baixos por conta da escravidão e do fracasso histórico da nossa política educacional. Isso fez com elas deixassem de investir em novas tecnologias, melhorar as práticas gerenciais, procurar novos mercados e gerar empregos de alta qualificação. Isso teria que acabar para que a economia voltasse a crescer. O problema é que nenhum governo latino-americano tem coragem para enfrentar o lobby das grandes empresas estabelecidas em todos os setores da economia. Assim, os governos nesses países terão que contar com a sorte para serem reeleitos.

  1. “Presidential Success and the World Economy”, por Zucco Jr e Campello (2015).
  2. “Productivity Spillovers, Markups and Production Networks in an International Business Cycle Model”.

Fonte: Valor Econômico – 20/09/2019

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