Pastore, 81: pensador original de espírito público, que não fala sem checar os dados — Foto: Leo Pinheiro/Valor

Pastore, 81: pensador original de espírito público, que não fala sem checar os dados — Foto: Leo Pinheiro/Valor

Há quatro formas distintas e interligadas de ler o bom “A Economia com Rigor”, livro organizado por Ilan Goldfajn e Fernando Dantas para celebrar o octogésimo aniversário de Affonso Celso Pastore, um dos mais destacados economistas brasileiros.

A primeira é como uma biografia de Pastore, como Affonso Celso é chamado pela maioria de nós. Pastore foi um acadêmico de destaque, tendo ensinado na USP e na FGV e publicado artigos influentes. Também foi presidente do Banco Central (BC) e secretário de Fazenda de São Paulo, entre outros cargos públicos, e é um consultor de sucesso.

Ao longo desse tempo, foi um “public intellectual”, que, como destaca Celso Lafer, pode “fazer a crítica do poder, mas também está ao seu alcance assessorar o poder, exercendo influência e por vezes assumindo responsabilidades públicas”. O livro mostra como nesses diversos papéis Pastore tem influído nos rumos da nossa política econômica.

No livro, a biografia de Pastore em parte se confunde com a da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, a FEA, da USP. Isso pois Pastore, diferentemente de muitos de seus contemporâneos economistas, fez mesmo faculdade, e não só pós-graduação, em economia.

Como explica Antonio Delfim Netto, a FEA foi fundada em 1946 com um corpo docente que hoje soaria estranho: “dezenove advogados formados pela São Francisco, treze professores da FFCL [Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras] com alguma especialização e três engenheiros”.

Tanto Delfim como Marcos Lisboa falam bastante desses primeiros anos da FEA/USP e dos professores que insistiam em testar as narrativas econômicas com fatos históricos e métodos estatísticos. Entram aí o próprio Pastore e Delfim, que foi seu professor, dentro e fora da FEA.

A segunda forma de ler o livro é como a defesa desse “rigor” na análise econômica. Como colocam os organizadores na introdução, “[a] vida e a obra de Affonso Celso Pastore são um exemplo emblemático da linha de pesquisa econômica baseada no rigor teórico e, principalmente, na busca incessante de uma análise criteriosa dos dados. (que) se contrapõe às grandes narrativas sem adequada comprovação que marcaram nossa tradição intelectual”. E esse rigor se revela na resenha da obra de Pastore feita por Marcos Lisboa e Samuel Pessôa.

A terceira leitura possível do livro é como uma discussão sobre política monetária, tema que mobiliza muito da atenção de Pastore desde o início dos anos 1980. José Júlio Senna discute como se via a política monetária nessa época e como grandes economistas de então tinham uma visão mais leniente quanto à inflação, argumentando que reduzi-la teria um custo elevado, uma questão sobre a qual o próprio Pastore refletiu à época. Senna também fala do livro “Inflação e Crises”, de autoria de Pastore, citado em outras partes do livro.

Mário Mesquita e Ilan Goldfajn também discutem política monetária, mas olhando para o período mais recente. O foco é o regime de metas de inflação e o papel que a credibilidade do BC exerce em influenciar as expectativas e, dessa forma, reduzir o custo econômico e social de controlar a inflação. Os dois examinam momentos críticos do processo de consolidação do regime de metas, discutindo erros e acertos. Um registro importante que vai ajudar futuros praticantes.

Arminio Fraga e Edmar Bacha recorrem a uma abordagem mais propositiva. Arminio foca a discussão em curso no Congresso sobre a Lei 4.595, que regula a atuação do BC. Em especial, discute sua proposta “de incluir como objetivo secundário do BC a suavização do ciclo econômico”, além de outros temas associados à independência do BC.

Bacha, por seu turno, propõe alterar a forma como se contabiliza o “custo de carregamento dos ativos do setor público”, dado pela “diferença entre os juros recebidos pelo governo por esses ativos e os juros que ele economizaria caso os vendesse e usasse os recursos para reduzir a dívida pública”. Bacha defende que esse seja contabilizado como despesa primária, refletindo tratar-se de uma opção de política pública.

Por fim, o livro pode ser lido como uma narrativa das últimas décadas de nossa história econômica. Vários dos capítulos citados acima fazem isso. Porém, isso aparece com mais clareza no capítulo final, em que Ilan e Dantas entrevistam Pastore sobre sua trajetória profissional. Aqui faço dois destaques.

Um, a riqueza do depoimento pessoal de Pastore sobre momentos importantes da nossa história. Registro em especial o testemunho de como o BC – e, por conseguinte, a política monetária – se subordinava às políticas traçadas pelo governo e pela Fazenda. O que ajuda a mais bem visualizar a conquista que representou a autonomia conquistada pelo BC nas últimas décadas.

Outro, quão difícil era ser rigoroso na análise econômica em uma época em que não se dispunha de toda a facilidade que a tecnologia da informação hoje nos oferece. O relato de Pastore sobre a tabela de logaritmos e a máquina de manivela Facit, utilizadas em sala de aula, são a demonstração mais viva do que significa ser rigoroso na análise da economia.

Ao longo de minha vida profissional ouvi Pastore expor diversas vezes, assim como li vários de seus textos, inclusive nas suas colunas de jornal, que leio com assiduidade. É um pensador original, que não fala sem checar os dados e tem grande espírito público, sempre buscando o melhor para este nosso Brasil. Por tudo isso, parabenizo os organizadores e os autores do livro pela mais que merecida homenagem que fazem a Pastore.

A Economia com Rigor”

Ilan Goldfajn e Fernando Dantas (organização). Companhia das Letras, 160 págs., R$ 49,90

Fonte: Valor Econômico, por Armando Castelar Pinheiro é coordenador de Economia Aplicada do Ibre/FGV, professor da Direito-Rio/FGV e do IE/UFRJ