Não é razoável fazer política econômica sem pensar na distribuição de renda, que é muito desigual no Brasil, e, por isso, uma sociedade obrigada a pressionar o governo por um programa que evita a exposição das pessoas à pobreza, mas sem comprometer o horizonte fiscal, o que é possível, segundo Affonso Celso Pastore. Sócio da AC Pastore & Associados e ex-presidente do Banco Central, o economista foi o entrevistado do Live do Valor desta terça-feira. https://www.youtube.com/watch?v=gqtKQiUs1r8&feature=emb_title

“Há certas ações no campo de políticas públicas que demandam pegar classes menos favorecidas e montar um sistema de renda mínima que evite que essas pessoas fiquem expostas a situações de pobreza”, disse Pastore.

Ele reconheceu ganhos nesse campo com o programa Bolsa Família, mas afirmou também que “há muito para avançar”, citando que o programa não consegue chegar aos trabalhadores informais propriamente.

Pastore mencionou o Programa de Responsabilidade Social, em que os economistas Vinícius Botelho, Fernando Veloso e Marcos Mendes propõem um redesenho dos programas sociais, com a fusão do Bolsa Família com o salário-família, o abono salarial e o seguro-defeso. O trabalho contou com o patrocínio do Centro de Debates de Políticas Públicas (CDPP), onde Pastore é um dos diretores, e o apoio de Elena Landau. “Eles produziram uma unificação dos programas com o objetivo de, primeiro, terminar com a pobreza extrema no Brasil e, segundo, ter mecanismos que estabilizar a renda do indivíduo quando ele é pego por uma situação de emergência, como uma pandemia”, explicado Pastore. “No fundo, você endereça o objetivo de melhorar a distribuição, ter a extinção da pobreza extrema e, ao mesmo tempo, ficar dentro do teto de gastos.”Pastore recomendou ao presidente Jair Bolsonaro e seu governo que olhassem para programas desse tipo. “Deveria, de uma forma ou de outra, a sociedade fazer pressão na direção de que um programa como esse – volto a insistir, extremamente importante – fosse aprovado. É possível fazer isso, desde que está pensando no brasileiro, no bem-estar da sociedade “, afirmou.

O ex-presidente do BC criticou a atuação do governo brasileiro na pandemia. “Não salvamos as vidas que poderíamos e publicamos uma assistência, pelo menos do ponto de vista fiscal, quando foi feito um programa todo torto de ajuda emergencial, que acabou sendo muito acima daquilo que era necessário.”

Sobre a questão ambiental, Pastore também disse que o governo “tinha que se colocar muito mais claramente na defesa do meio ambiente”. “Na medida em que ele não se coloca, a sociedade que pressione, e o efeito, certamente, tem muita força para fazer essa pressão”, afirmou, elogiando o setor privado por estar se organizando em torno do debate ambiental.

Fonte: Valor Econômico, por Anaïs Fernandes

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.