O economista britânico John Williamson faleceu em sua casa em Chevy Chase, Mariland, em 11 de abril, aos 83 anos. Ele ficou conhecido internacionalmente como o pai do Consenso de Washington. Foi um termo que inventou em 1989 para caracterizar dez princípios de política econômica aplicáveis à América Latina, que teriam ampla aceitação no governo americano e em agências internacionais, especificamente o FMI e o Banco Mundial, localizadas na capital dos EUA. Esses princípios referem-se basicamente a abertura ao comércio internacional, economia de mercado e disciplina fiscal. Temas banais hoje em dia, mas que trinta anos atrás eram novidade numa América Latina dominada por protecionismos, estatismos e inflacionismos.

Por isso mesmo, John Williamson sempre reclamava de uma interpretação segundo a qual o Consenso seria a expressão do neoliberalismo. Como disse em entrevista ao Washington Post em 2009: “Nunca houve um consenso em Washington ou qualquer outro lugar em favor do monetarismo, supply-side economics, crença na ubiquidade da concorrência perfeita, na imoralidade da ação estatal para redistribuir renda de ricos para pobres, ou outras doutrinas excêntricas de direita que são agrupadas como expressão do neoliberalismo”. Williamson certamente não compartilhava do “fundamentalismo de mercado”, tanto assim que sempre teve restrições à livre movimentação de capitais financeiros, postulando a introdução de controles prudenciais sobre esses capitais reforçados por mecanismos de coordenação internacional.

Williamson na verdade era a expressão de uma posição política de centro reformista, revelada pelo fato de ter sido sempre um eleitor dos Liberais Democratas, a terceira via nunca vitoriosa, espremida entre o Partido Conservador e o Partido Trabalhista no Reino Unido.

Certa feita, ele reclamou comigo de ter ficado com a fama de ser o pai de um consenso de Washington neoliberal, mesmo tendo escrito novo artigo com ênfase nas falhas de mercado, na distribuição de renda e na conservação de recursos naturais, o qual pouco impacto teve. Brinquei com ele que não tinha jeito, sua paternidade do Consenso agora era parte da história, ele não iria conseguir um exame de DNA. Disse-lhe que eu também com a fábula de Belíndia o que queria era propagar uma nova maneira de medir o crescimento econômico com ênfase na distribuição da renda, mas isso não prosperou. O que ficou para a história foi minha associação a um termo bem talhado.

Embora reconhecendo que a paternidade do Consenso o fizera famoso, Williamson reclamava que essa fama obscurecera suas contribuições à análise econômica, especialmente no que se refere à teoria e política das taxas de câmbio. Ele desenvolveu os conceitos de taxas de câmbio de equilíbrio fundamental e de um regime cambial que Rudiger Dornbush batizou de BBC, para banda (flutuação com limites), basket (cesta de moedas) e crawl (devagar-e-sempre). A Williamson desagradava tanto o câmbio fixo como o livremente flutuante, especialmente em países emergentes. Sua proposta era intermediária entre esses dois regimes, com o câmbio de um país variando entre limites superior e inferior, eles próprios reajustados com frequência de acordo com a inflação do país em relação às de seus parceiros comerciais.

Williamson não se conformava com a ideia de taxas de câmbio fixas supervalorizadas nem de taxas de câmbios livremente determinadas pelo fluxo de capitais em países emergentes. As primeiras porque exigiam para sua manutenção taxas de juros asfixiantes da economia (e como tivemos disso em nossa experiência histórica!), as segundas porque geravam uma volatilidade cambial excessiva inimiga da expansão do comércio. Afinal, contra sua vontade, prevaleceu na América Latina a opção por um câmbio flutuante com intervenções ocasionais dos bancos centrais propiciada pela acumulação de reservas internacionais.

Iniciou sua carreira profissional em universidades britânicas, mas seu foco nunca foi o ensino mas sim a pesquisa aplicada, voltada para os grandes temas dos regimes monetários e cambiais internacionais. Nos anos 1970, trabalhou como economista principal no FMI, onde conheceu a economista brasileira, Denise Rosemary Rausch, com quem casou e desembarcou no Rio de Janeiro em 1978. Inicialmente, esteve no IBGE mas foi logo atraído para o departamento de economia da PUC-Rio onde um grupo de jovens economistas – inclusive o autor deste artigo – dava início a um programa de mestrado em economia. Seu português era claudicante, mas foi a partir das aulas que lecionou na PUC-Rio que produziu um livro texto sobre economia internacional. Também organizou um seminário internacional no Hotel Paineiras, à sombra do Cristo Redentor, em outubro de 1979, que gerou um importante livro de ensaios sobre o regime cambial das minidesvalorizações.

Em 1981, aceitou o convite de Fred Bergsten para trabalhar no recém-criado Instituto de Economia Internacional (hoje Instituto Peterson de Economia Internacional, PIIE) e retornou a Washington, DC, onde permaneceu até seu falecimento. Nesse instituto, produziu numerosos estudos sobre temas monetários internacionais e de desenvolvimento econômico, em boa parte responsáveis por o PIIE ter-se tornado um dos mais importantes think tanks internacionais.

Por ocasião da aposentadoria de Williamson no PIIE em 2012, seus colegas o homenagearam com uma conferência, “Global Economics in Extraordinary Times: Essays in Honor of John Williamson”. A conferência ressaltou como suas publicações sobre Consenso de Washington, política cambial e reforma monetária internacional influenciaram profundamente o discurso público, a política governamental e a evolução da disciplina.

Em 2014, John Williamson fez sua última visita ao Rio de Janeiro. Participou de conferência na Casa das Garças sobre o Estado da Economia Mundial, em homenagem aos 70 anos de Pedro Malan. Analisou a crise do Euro, antecipou a inevitabilidade do Brexit e sugeriu um controle de preços e salários para evitar o prolongamento da recessão nos países europeus deficitários. Mais longe não poderia estar do suposto neoliberalismo do Consenso de Washington!

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