Trabalho em casa e as compras pela internet vieram para ficar

VALOR

A atividade econômica no início deste ano (antes da segunda onda) tinha voltado aos níveis que prevaleciam no início de 2020, antes da pandemia. No entanto, o número de trabalhadores empregados permanecia 8% abaixo. Isso é muito ruim, porque o número de pessoas desempregadas ou que já desistiram de procurar emprego aumentou bastante. E suscita várias indagações. Por que será que a atividade econômica tinha voltado ao normal, mas o total de empregos não? Que fatores poderiam explicar esse aumento da produtividade? Será que ela vai continuar elevada depois que a pandemia acabar? Qual o futuro do emprego não-qualificado?

A figura investiga algumas dessas questões ao mostrar o comportamento do volume real de vendas, total de empregados e número de horas trabalhadas no setor formal do comércio entre o início de 2019 e o final de 2020, combinando a Pesquisa Mensal do Comércio com as pesquisas domiciliares produzidas pelo IBGE. Todos os dados foram normalizados para serem iguais a 100 no início do período. Podemos notar que as séries permanecem relativamente constantes até o final de 2019. Mas, entre o final de 2019 e o início de 2020 o número de horas trabalhadas e o emprego começaram a diminuir, ao passo que o volume de vendas ainda aumentava.

Home office e as compras pela internet tornaram as pessoas mais qualificadas ainda mais produtivas

Em seguida, no auge da primeira onda, as horas trabalhadas declinaram ainda mais, atingindo apenas 70% do que era trabalhado no final de 2019. Mas, o total de empregados declinou bem menos, cerca de 10%. Ou seja, uma parcela grande de trabalhadores continuou empregada, mas passou a trabalhar menos horas. Isso ocorreu porque um dos programas do governo para enfrentar a pandemia (o Benefício Emergencial de Manutenção de Emprego e Renda) permitiu que as empresas reduzissem temporariamente a jornada de trabalho e o salário.

O volume de vendas no comércio também caiu significativamente no início da pandemia, chegando a apenas 85% do que era vendido no final de 2019. O interessante é que a produtividade do trabalho, se medida pelo volume de vendas por trabalhador, teria diminuído durante o auge da pandemia. Porém, se for medida usando o número de horas trabalhadas, que é o mais correto, ela na verdade aumentou, pois as horas caíram bem mais do que o volume de vendas no comércio desde o final de 2019. No período de recuperação (a partir do 3º trimestre), tanto o volume de vendas como as horas trabalhadas aumentaram significativamente, sendo que no comércio as vendas aumentaram mais do que as horas. No entanto, o emprego com carteira assinada não reagiu, permanecendo 8% abaixo do início de 2019.

Assim, a produtividade no comércio aumentou tanto na fase mais crítica da pandemia do ano passado, como no processo de recuperação de vendas. Enquanto o volume de vendas no final de 2020 estava 8% acima do seu nível pré-pandemia, as horas trabalhadas e o emprego permaneciam 7% abaixo. O mesmo fenômeno ocorreu na indústria e no setor de serviços. Na indústria, enquanto o valor da produção estava 3% acima do período pré-pandemia no final de 2020, as horas permaneciam 3% abaixo. No setor de serviços, o mais atingido pela pandemia, as vendas estavam 3% abaixo de 2019, mas o total de horas trabalhadas permanecia 9% abaixo. Isso significa que a produtividade aumentou em todos os setores da economia após a primeira onda da pandemia.

O que pode explicar esse aumento da produtividade? No início da pandemia, houve retração bem maior do emprego e das horas entre os trabalhadores menos qualificados e informais, que são menos produtivos, em todos os setores. Assim, houve um aumento da qualificação média da mão de obra e redução da informalidade e redução do setor de serviços, o que explica grande parte do aumento da produtividade ocorrida nesse período inicial. Mas na fase da retomada (que está sendo abortada pela segunda onda), as horas trabalhadas aumentaram bastante tanto entre os trabalhadores mais qualificados como entre os menos escolarizados e informais. Assim, esse “efeito composição” não explica o aumento da produtividade na indústria e no comércio ocorrido após o final da primeira onda. O que terá ocorrido?

A pandemia pode ter desencadeado um processo de aumento permanente da produtividade nesses setores. A explicação mais plausível para isso é que o trabalho em casa e as compras pela internet vieram para ficar, o que tornou as pessoas mais qualificadas ainda mais produtivas e diminuiu a necessidade de contratação de trabalhadores. Evidências nos EUA indicam que até 22% das horas trabalhadas continuaram sendo feitas em casa depois da pandemia nos EUA, o que poderá aumentar a produtividade por lá em até 2,7%, diminuirá o consumo nos grandes centros urbanos e beneficiará ainda mais os trabalhadores qualificados.

Ao passar mais tempo trabalhando em casa, as pessoas economizam os custos de deslocamento, passam menos tempo conversando no trabalho e mais tempo com sua família. Isso será ainda mais importante no Brasil, com seu trânsito horroroso nas grandes cidades e tendência ao bate-papo no trabalho. Se for confirmado após a pandemia, esse aumento de produtividade terá efeitos deflacionários. Além disso, como parte das compras continuará sendo feita à distância, não haverá necessidade de tantos vendedores para mostrar os produtos disponíveis nas lojas.

Assim, parte dos empregos no comércio perdidos durante a pandemia não voltarão. Mas, o que acontecerá com os vendedores que trabalhavam nas lojas e nos restaurantes quando a pandemia acabar? Vão todos entregar pizza?

1 “Why Working from Home will Stick”, de Barrero, Bloom and D

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/produtividade-na-pandemia.ghtml

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