Valor (publicado em 07/07/2021)

A nova onda de ruídos políticos voltou a pressionar os mercados nos últimos dias e é uma da razões para a alta do dólar, que fechou ontem na casa dos R$ 5,20. Mas, para Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco, o mercado pode estar reagindo de forma excessiva a esse noticiário. Para ele, fundamentos como a recuperação da economia doméstica e o progresso da vacinação devem ser observados com mais atenção neste momento. “Esses fatores parecem mais relevantes que o ruído político de curto prazo”, disse.

Na Live do Valor, Mesquita disse que elementos a favor do real, como a alta das commodities, e a perspectiva de novas altas da Selic, para pelo menos 6,5%, devem prevalecer até o fim do ano e levar a moeda a R$ 4,75.

O exterior, entretanto, pode ser uma fonte de estresse para o mercado. O risco do avanço de variantes do coronavírus e a alta de juros pelo Federal Reserve, (BC dos EUA) entre o fim de 2022 e o início de 2023, devem ser monitorados.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

Incertezas lá fora
Entre os fatores externos que contribuem para “estressar” o mercado financeiro brasileiro, Mesquita destacou a variante Delta da covid-19, que se espalha pelo globo e parece ter capacidade maior de “burlar” a imunidade das vacinas, ainda que elas continuem demonstrando eficácia boa para casos graves e internações.

Outro ponto de incerteza é a política monetária dos EUA. Para Mesquita, o indicador de emprego americano da última sexta-feira foi “construtivo” ao apontar criação de vagas, mas com comportamento ainda moderado dos salários, em linha, segundo ele, com os diagnósticos do Federal Reserve. Ainda é preciso observar, porém, como virão os índices de preços ao consumidor, ponderou.

“Por ora, parece que os dados estão dando apoio ao diagnóstico do Fed e conforto à ideia dele de só começar a reduzir os estímulos no começo do ano que vem e subir a taxa de juros no início de 2023 ou no fim de 2022”, afirmou Mesquita. O Itaú projeta o juro americano de dez anos entre 1,5% e 2% no fim de 2021 e em torno de 2,5% a 3% no fim de 2022. “Só passa de 3% quando o Fed já está muito avançado na sua comunicação sobre retirada de estímulos”, estimou Mesquita.

Entre os riscos para o horizonte do Fed, ele citou ainda os custos da habitação e a alta nos preços do petróleo, que vive, de acordo com Mesquita, um novo choque desde o início do ano. Embora isso não influencie os núcleos de inflação (medidas que tentam suavizar os efeitos de itens mais voláteis), “incomoda”, disse.

Ruídos políticos aqui dentro
Condicionada por esse ambiente externo incerto, a reação dos agentes econômicos a “ruídos políticos” no Brasil pode estar um pouco excessiva, avaliou Mesquita. “O noticiário político está um pouco mais ruidoso. Isso, de certa forma, em um ambiente internacional mais complicado, está contribuindo para o nervosismo do mercado.”

Para ele, no entanto, é preciso observar fundamentos como a recuperação da economia doméstica e o progresso da vacinação. “Esses fatores parecem mais relevantes que o ruído político de curto prazo, embora eu admita que ele tenha tido influência sobre os sentimentos dos mercados”, disse.

O cenário do Itaú de alta de 5,5% para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro neste ano não contempla uma terceira onda intensa da covid-19, o que é um fator de risco, segundo Mesquita. A normalização da atividade deve acontecer no quarto trimestre, principalmente entre os serviços, como resultado do avanço da vacinação. “Isso sem considerar um efeito de nova variante, possivelmente a Delta”, ponderou. “Se a variante se mostrar mais agressiva e contagiosa, essa perspectiva fica sob risco.”

Ainda assim, o impacto de uma terceira onda sobre a atividade pode ser limitado, como já observado na segunda onda, seja porque as pessoas não se distanciaram como antes – “o que, obviamente, tem um custo do ponto de vista de saúde pública”, disse Mesquita -, seja porque houve uma curva de aprendizado entre pessoas e empresas para lidar com a situação.

Energia mais cara
Outro risco no horizonte brasileiro diz respeito à crise hídrica, embora, por enquanto, seus reflexos devam ser mais na inflação do que na atividade, apontou Mesquita. Para que ocorra um racionamento de energia, “tem que ser um cenário que a gente viu uma vez nos últimos 20 anos, uma probabilidade de 5%”, lembrou.

O ponto importante nessa questão, observa Mesquita, é que a presença recorrente desse risco aponta para um problema mais estrutural: os preços da energia podem não estar sinalizando de forma adequada à sociedade qual deve ser a intensidade do seu consumo. “Como economista, quando vemos um mercado em que recorrentemente se discute racionamento quantitativo do consumo, seja de bem, seja de serviço, é porque o sistema de preços não está funcionando de forma ideal. Em mercados que funcionam bem, preços sobem ou descem e, com isso, ajustam a demanda à oferta.”

Por isso, disse ele, é possível que os preços de energia subam estruturalmente no Brasil, “para que a gente consuma menos e pare de discutir, ano sim, ano não, o racionamento”.

Selic além do neutro?
A questão energética, seja da conta de luz, seja do preço do petróleo, é um dos choques que começam a se disseminar e podem forçar o Banco Central a levar a taxa básica de juros para além do nível neutro (aquele que não estimula nem contrai a economia). A autoridade monetária estima esse patamar em 6,5% ao ano, a mesma projeção do Itaú para a Selic.

“Não consigo descartar que tenha que levar acima dos 6,5%”, admitiu Mesquita. “Não por excesso de demanda, mas porque tem uma hora em que tem que atuar de forma mais intensa para segurar as expectativas.”

Na sua interpretação, a última comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom) deixou um aumento mais intenso da Selic, de um ponto percentual, “muito na mesa”. Essa é a previsão do Itaú para a reunião de agosto, o que levaria os juros a 5,25% ao ano. “Agora, acho que não dá para dizer que você vai fazer isso para depois subir menos no final, não tem como saber de antemão”, afirmou. “Eu preferiria: vai fazendo o ajuste no ritmo que achar apropriado, olhando as projeções, como tem feito, e, aí, se no fim do processo precisar subir menos, ótimo”, disse Mesquita, que já foi diretor de Política Econômica do BC.

Ainda sobre política monetária, ele disse que a meta de inflação de 3% para 2024 não parece exagerada e, inclusive, poderia se tornar um objetivo definitivo para o país. “Ajudaria a ancorar expectativas.”

Dólar abaixo de R$ 5
A alta rápida dos juros no Brasil, bem como os preços de commodities em níveis historicamente favoráveis ao Brasil e termos de troca (relação entre valores de exportação e importação) também melhores, joga a favor do real em relação à moeda americana, segundo Mesquita. Ontem, porém, o dólar comercial fechou em alta de 2,4%, cotado a quase R$ 5,21.

Pelo modelo de “fair value” (valor justo), o câmbio deveria estar entre R$ 4,50 e R$ 5, calcula o Itaú. “Quando a gente faz análise de paridade de poder de compra, também de longo prazo, ajustando por produtividade, a gente chega à conclusão de que o real deveria estar mais forte do que está agora”, disse Mesquita.

Na sua avaliação, fatores de fortalecimento do real ainda devem prevalecer sobre incertezas e ruídos políticos de curto prazo, que ajudam a explicar parte da desvalorização recente do câmbio. O dólar encerraria o ano a R$ 4,75, no cenário do banco. Em 2022, porém, com o Fed preparando o terreno para subir os juros, o real deve depreciar de novo, com o dólar acima de R$ 5, estimou Mesquita.

Sem tempo para reformas
Um dos temores a respeito da citada crise política no Brasil é que ela acabe enfraquecendo e retardando a agenda de reformas do governo em geral, afirmou Mesquita. “Olhando adiante, 2022 é ano de eleição, estamos na metade de 2021, daqui a pouco é recesso. Tem uma janela de alguns poucos meses no segundo semestre para ver as reformas avançarem.”

O governo parece dar alguma celeridade à agenda de privatizações, observou Mesquita, citando noticiário recente a respeito dos Correios. Sobre a reforma administrativa, disse não saber “como ela vai emergir da atual crise política”.

No âmbito tributário, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 45, que prevê uma unificação ampla dos impostos sobre o consumo, deve encontrar dificuldades para ser aprovada no contexto da pandemia, já que aumenta a carga dos serviços, setor mais afetado na crise sanitária, disse Mesquita. “Vejo essa reforma parada ou avançando muito lentamente.”

Já a reforma do Imposto de Renda apresentada pelo governo tem mais chances de aprovação, entre outras coisas, porque conta com um elemento “simpático” a boa parte da população, que é a redução da tributação a camadas de assalariados de renda média para baixa, apontou Mesquita. “Mas o tempo é curto e os detalhes já estão suscitando muita resistência”, ponderou. Para o Itaú, a chance de a reforma passar é de 30% a 40%.

“Tirando a pauta das privatizações, que parece que ganhou impulso adicional recentemente, não tenho grande otimismo”, resumiu o economista. Pelo contrário, ele disse se preocupar com a morosidade no processo de abertura comercial do país, “inclusive com algumas iniciativas legislativas na contramão, de fechar ainda mais a economia”.

De olho nas urnas
O mercado financeiro deve ficar mais concentrado na eleição presidencial do próximo ano a partir de abril ou maio de 2022, segundo Mesquita. No momento, disse ele, o quadro caminha para uma disputa entre o atual mandatário, Jair Bolsonaro, e o ex-presidente Lula “Uma terceira via, hoje, parece pouco provável, mas não consigo descartar”, afirmou.

Se a corrida ficar mesmo entre Lula e Bolsonaro, Mesquita observou que ambos são bem conhecidos da população. “Não é um cenário que traga grandes novidades.” Questionado se a resistência do mercado a Lula já está colocada, o economista disse que “o mercado é pragmático” e deve olhar o conteúdo das propostas e as pessoas envolvidas. “Tem sido assim nos últimos anos, não acho que será diferente.”

Ainda a questão fiscal
O contexto político será importante também para o cenário fiscal do país, já que os riscos não foram embora, lembrou Mesquita. A relação dívida bruta/PIB, que se aproximou de 90% no ano passado, deve cair para algo perto de 82% em 2021 e ficar nesse patamar em 2022, segundo o Itaú. Ainda não é um nível confortável, especialmente para um país emergente, alertou Mesquita. “O problema fiscal segue com a gente.”

A estratégia brasileira de consolidação muito gradual é baseada no teto de gastos, que, na visão do Itaú, não tem inviabilidade aritmética para ser cumprido em 2022 e 2023. Mas existe uma grande discussão política a respeito dele, reconheceu Mesquita. “Pode ser que as forças políticas resolvam adotar outro regime de política fiscal”, afirmou, acrescentando que será importante acompanhar essas discussões.

Link da publicação: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/07/07/para-mesquita-reacao-a-ruidos-politicos-tem-sido-excessiva.ghtml

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