Virtù (publicado em 09/07/2021)

“O que legitima um governo e o que une um país é a qualidade do gasto público, a qualidade do serviço que a população recebe”, afirma a economista Maria Cristina Pinotti, autora do livro “Corrupção: Lava Jato e Mãos Limpas”. Mas, adverte ela, o que “estraçalha” um país é a falta de um projeto comum em benefício da população. É o que ela vê no País neste momento: “Não temos governo”.

Em conversa com o Virtù, Maria Cristina fez uma análise da promessa de transformação que a Itália vive agora sob o comando do primeiro-ministro Mario Draghi. Economista extremamente capacitado e ex-presidente do Banco Central, Draghi construiu um grande bloco de apoio político ao redor de sua agenda reformista. Com rumo e clareza nos objetivos, aglutinou até mesmo forças adversárias. Como afirma Maria Cristina, é um exemplo que deveria servir de referência para o Brasil – particularmente, para as forças políticas que se colocam como alternativa a Lula e a Bolsonaro.

“A Itália ganhou um presente do céu. Uma chance única de virar o jogo”, afirma ela. “Na verdade, não se trata apenas do futuro da Itália, mas do futuro europeu”.

A dura crise de 2011 foi uma prova de fogo para a União Europeia. Vozes separatistas ganharam proeminência, populistas chegaram ao poder, e os britânicos disseram “sim” ao Brexit. A Itália era uma séria candidata a deixar o bloco.

Mas as lideranças europeias souberam aprender as lições da crise e decidiram ampliar os investimentos nas regiões menos desenvolvidas, principalmente depois da pandemia. Agiram para fortalecer o projeto comum e enfraquecer o discurso de ruptura.

A Itália terá direito a uma ajuda de 248 bilhões de euros. E quais serão os projetos prioritários de Draghi? Focar nos ganhos de produtividade, capacitando os mais jovens, protegendo as mulheres, investindo em tecnologia e reduzindo o peso estatal na economia.

“Draghi tem uma radiografia muito precisa do que é necessário fazer”, diz Maria Cristina. “Foi um presente que caiu no colo da Itália. Espero que aproveite bem.”

Sobre o Brasil, vê a retomada econômica ainda muito desigual, o que pode trazer a perigosa sensação de que as coisas estão indo bem. “Não estão. O Brasil optou por tolerar mais mortes. O dinheiro foi muito mal utilizado, apesar de não ter havido falta de recursos”, comenta. Tudo isso deixará sequelas.

“É sabido o que precisa ser feito”, diz Maria Cristina, mas, comenta, as reformas só irão adiante se houver um governo de fato empenhado em combater privilégios e trabalhar de fato a favor daqueles que mais necessitam de amparo do estado. “Temos recursos para isso. É só usar bem. E ser honesto”.

Link da publicação: https://virtunews.com.br/maria-cristina-pinotti-temos-recursos-e-so-usar-bem-e-ser-honesto/

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