Valor (publicado em 06/08/2021)

Já passa de 17 mil o número de assinaturas ao manifesto em defesa das instituições brasileiras. “A coisa mais próxima do que é esse movimento no passado recente é o movimento das Diretas Já”, afirma o economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), um dos primeiros signatários do texto que começou a ser fomentado dentro do Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP).

“O que impressiona é como foi rápido haver consenso em torno da necessidade da sociedade civil se colocar contra os ataques que o presidente da República está fazendo contra as instituições. E como foi rápida a adesão”, diz. Ele conta que o movimento começou a partir de troca de mensagens por ‘chat’ de pessoas ligadas ao CDPP e, em poucas horas, o texto estava criado e assinado por milhares de pessoas. “Ao defender o voto impresso e atacar o Judiciário, um dos poderes do país, o presidente está criando uma crise institucional, a sociedade civil tem que se manifestar”, afirma Pastore.

O economista Edmar Bacha, diretor da Casa das Garças e um dos criadores do Plano Real, diz que há duas mensagens importantes a serem transmitidas por meio do manifesto: a sociedade está levando a sério as ameaças reiteradas à democracia feitas pelo presidente; e a elite econômica não vai tolerar arroubos autoritários em nome de uma política econômica pró-mercado. “As pessoas não costumavam levar o presidente a sério, olhavam para esses ataques como algo folclórico. Mas estamos, sim, levando a sério, estamos com a democracia sob ameaça”, afirma Bacha. Para ele, havia também uma presunção de que o mercado, a elite econômica iria tolerar certas posturas do presidente por confiar em uma política econômica supostamente liberal. “O povo quis dizer que não é bem assim”, afirma. “A instabilidade cria incerteza grande, o que tem impacto, inclusive, econômico”.

Embora os signatários do manifesto ouvidos pelo Valor concordem que a política econômica do atual governo gera insatisfação, a economista Ana Carla Abrão, da consultoria Oliver Wylman, afirma que a motivação para este movimento é de outra natureza. “Definitivamente, o que nos uniu foi a defesa da democracia”, afirma. “O mercado vê que o discurso reformista, a agenda liberal não se realizou. Mas esse é um processo que não começou agora, é independente.”

Para ela, a escalada das ameaças contra a democracia, principalmente contra a urna eletrônica, fez com que se “cruzasse uma linha” perigosa, o que tornou necessário que a sociedade se posicionasse mais efetivamente. “A gente viu manifestações de rua, mas acho que agora passamos uma linha em que se tornou necessário que se coloque o país acima das diferenças , e isso explica o movimento”, afirma Ana Carla. “Acho que o estelionato da agenda econômica está clara já faz tempo, mas acredito que esse é um evento secundário.”

O economista Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de Banco Central (BC) e sócio fundador da Mauá Capital, diz não acreditar que os ataques do presidente Jair Bolsonaro contra o Judiciário terão impacto efetivo sobre as instituições que, para ele, “são muito consolidadas no Brasil.” “Mas ele está flertando com o que não deve, e a sociedade civil não aceita isso”, explica. “Acho difícil que haja algum rompante concreto autoritário, de fechamento de Congresso ou algo equivalente, porque não há apoio de nenhuma entidade nem popularidade para isso. E nossas instituições são fortes – embora complicadas. Mas são excessos de retórica que precisam ser contidos”, diz. Ele reconhece que esses excessos do presidente já vêm sendo cometidos há muito tempo. “Mas tem um ponto em que a sociedade civil diz: não dá mais.

Outro signatário do manifesto, o economista José Roberto Mendonça de Barros, diz que “o Brasil já tem problemas suficientemente grandes” para ficar “estressado com questões laterais, que colocam em questão o centro da democracia”. Para Mendonça de Barros, que foi secretário de Política Econômica, o país enfrenta hoje um problema de estagnação financeira e precisa com urgência de instrumentos para lidar com os efeitos da maior crise sanitária das últimas décadas. “E a gente tem de tudo sendo discutido, menos formas de criar bases sólidas para o crescimento”, afirma. Esse debate colocado pelo presidente Bolsonaro sobre o sistema eleitoral, diz Mendonça de Barros, “é artificial” , uma vez que país conta com mecanismos modernos e sólidos. “Ao atacar o sistema eleitoral, o presidente está colocando em dúvida a base do sistema democrático, sendo que o Brasil conta com um sistema sólido, testado, que funciona”, afirma. “Esses ataques estão tomando uma dimensão preocupante.”

Para o economista, é preciso que o governo respeite a divisão dos Poderes e atue a favor da sociedade. E deve voltar, portanto, esforços para combater a crise em curso. “O que temos hoje não é uma política econômica, é o suporte a uma candidatura”, afirma.

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