Globo (publicado em 03/10/2021)

O empresário Pedro Passos é um defensor claro da chamada terceira via para as eleições presidenciais de 2022. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, o copresidente do conselho de administração da Natura diz que não se pode escolher entre o inaceitável — a reeleição de Jair Bolsonaro — e o indesejável — a volta do ex-presidente Lula.

Passos vê evidências de crimes de responsabilidade cometidos por Bolsonaro que justificam a abertura de um processo de impeachment. Para ele, porém, só há chance real de cassação com protestos de rua e oposição unida. O empresário participará de um evento com políticos e especialistas sobre desafios do país organizado pela Comunitas na próxima quinta-feira.

O mercado tem revisado para baixo as projeções de crescimento do PIB e para cima as previsões de inflação. Como o senhor vê o cenário para o futuro?

Talvez nunca tenhamos passado por uma situação tão difícil, que soma uma série de crises: sanitária, econômica e política. Até o fim do ano, podemos talvez estar mais livres da parte crítica da pandemia. Por outro lado, o agravamento da situação econômica é evidente, todos os cenários com projeção de PIB para baixo, inflação alta e um cenário muito crítico proporcionado pela política. A situação de empobrecimento do país é muito grave e vamos ter de conviver com alta volatilidade até o calendário eleitoral definir o que acontecerá.

Qual é o maior desafio?

É o de caráter político.

O senhor disse há dois meses que o presidente deveria renunciar. Desde então, houve escalada no tom de Bolsonaro até 7 de setembro e, agora, uma suposta arrefecida. Pode haver um Bolsonaro paz e amor?

Não (risos). Enquanto ele estiver no poder, vai continuar polarizando, causando bastante confusão. Isso vai tornar o cenário econômico brasileiro muito ruim. A perspectiva de ele renunciar seria a de ele ser espremido por movimentos, inclusive do Congresso, e por indagações que existem contra ele.

Os protestos de rua entrariam nessa conta?

Não tenho visto uma mobilização forte, até porque a oposição a ele e ao Lula não se organizou em uma frente ampla. Há interesse do PT em manter a polarização com Bolsonaro, que é o candidato mais fácil de se vencer no segundo turno. Devemos lutar por uma alternativa que saia da polarização entre o que é inaceitável, a reeleição de Bolsonaro, e o que é indesejável, a reeleição do Lula. Por razões diferentes: um (Bolsonaro) porque não é democrata, é perigoso, não tem programa, não tem empatia com a população. O outro (Lula) porque traz uma agenda velha, de atraso, de intervenção econômica.

“Prometeram um governo reformista, mas não entregaram. E há esse descontrole fiscal, com precatório e ameaça ao teto de gastos ”..

Com que nome a terceira via teria chance?

Opinar sobre um nome seria imprudente neste momento, essa definição vai se dar mais lá na frente. Temos as prévias do PSDB, que é um momento importante da decisão. Acredito que na corrida final (diferentes candidatos) possam se unir.

É factível um impeachment de Bolsonaro?

Os elementos para um impeachment estão aí, as evidências de crimes de responsabilidade estão presentes. Do ponto de vista jurídico, não teria dúvida. Do ponto de vista político é uma avaliação difícil. Há uma base de deputados e senadores que tiram vantagem da situação e negociam com o governo para a manutenção do status quo.

A alternativa a isso é ter o povo na rua (protestando). Precisaria ter uma frente ampla, e isso não é provável porque a situação das pesquisas (eleitorais) é relativamente confortável para o PT.

Economicamente seria um problema o impeachment?

É um processo que gera alguma instabilidade, mas dentro do quadro que vivemos, não sei se agravaria tanto.

Bolsonaro tem um ano e três meses pela frente. Quais riscos econômicos o país corre?

Bolsonaro aposta em uma saída que vá contra as instituições, embora eu acredite que o Brasil ainda tem instituições fortes. É evidente que a reeleição dele é pouco provável, mesmo se for ao segundo turno

Há alguma chance de haver aprovação de reformas até o fim deste governo?

Não acredito. Prometeram um governo reformista, mas não entregaram. E há esse descontrole em relação ao regime fiscal, com precatórios correndo por fora e ameaça ao teto de gastos.

Que reforma tributária deve e pode ser feita?

A PEC 45 (que previa reforma ampla de impostos sobre consumo e foi engavetada) seria um importante destravamento para a economia brasileira porque desonera exportações, é menos regressiva, estabiliza alíquotas, elimina subsídios regionais. Obviamente, também precisamos reformar o Imposto de Renda.

Qual a sua visão sobre a reforma do IR como ela está?

A reforma tem alguns conceitos corretos, como diminuir a tributação corporativa e aumentar a sobre lucros e dividendos distribuídos, mas está cheia de furos. Eu preferiria discuti-la em um novo governo.

Link da publicação: https://oglobo.globo.com/economia/devemos-evitar-polarizacao-entre-inaceitavel-bolsonaro-o-indesejavel-lula-diz-pedro-passos-da-natura-25222355

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