Folha (publicado em 07/11/2021)

Até três semanas atrás meu cenário era que a economia iria crescer 2% em 2022. Estava mais otimista do que a média dos analistas. No entanto, a tumultuada tramitação do orçamento e a aprovação em primeiro turno na Câmara, para atender interesses políticos menores, do projeto de emenda à Constituição (PEC) dos precatórios acabaram por desancorar a política fiscal.

Desancorar a política fiscal significa que a percepção que as pessoas têm da forma como o Congresso Nacional, sob a liderança da Presidência da República, lida com o conflito distributivo é de que está disfuncional. Há a sensação de que a dívida pública somente será sustentável com o recurso do imposto inflacionário.

Essa piora das expectativas fiscais desvaloriza o câmbio, reduz a cotação das empresas na Bolsa de Valores e eleva a taxa de juros de mercado. Esses três efeitos reduzem o crescimento da economia e pressionam a inflação. Reforça-se o cenário de estagflação.

O crescimento de 2% tinha quatro componentes: carregamento de 1%; ganho residual com a reabertura da economia na casa de 0,5 ponto percentual; impulso fiscal de um ponto percentual do PIB, em função da elevação dos investimentos dos estados (a receita de ICMS cresce a 14% em termos reais em comparação com 2019); e a contração monetária (Selic em alta) retiraria 0,5 ponto percentual. Somando tudo, chega-se ao cenário que eu tinha de crescimento de 2% em 2022.

O carregamento é o crescimento que haverá em 2022, mesmo que a expansão ao longo dos quatro trimestres do ano que vem seja nula. As projeções sugerem que a posição da economia no 4° trimestre de 2021 será maior do que a média nos quatro trimestres deste ano.

Se o crescimento for zero em 2022, a economia rodará no mesmo nível do 4º trimestre de 2021, que é superior ao da média de 2021 em 1% aproximadamente. Este é o legado do crescimento de 2021 para 2022, conhecido por carregamento.

Após a deterioração do cenário fiscal, quase todos os itens que sustentavam o cenário de crescimento de 2% em 2022 pioraram. Somente a expectativa de uma elevação do investimento dos estados se manteve.

Como o crescimento no 4º trimestre de 2021 será menor do que se imaginava, o carregamento cairá. Os ganhos com a reabertura da economia ficaram comprometidos e ocorrerão mais lentamente, principalmente devido à necessidade de maior elevação da taxa de juros para combater a inflação que está mais pressionada.

Estamos no meio das turbulências com a tramitação da PEC dos precatórios. Tratei dos detalhes da PEC na coluna de 23 de outubro. Não está claro ainda como será o final desse jogo. Muita névoa para sabermos como será 2022.

Nas colunas de 12 e 19 de setembro, tratei dos custos para a sociedade da construção da usina Abreu e Lima. Os números que apresentei na coluna foram contestados pelo post do professor Eduardo Costa Pinto do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em particular a informação que usei de um relatório do TCU de 2016, de que a refinaria causou prejuízos à Petrobras de US$ 19 bilhões, foi contestada. Segundo o professor, há ganho para a Petrobras de R$ 7,2 bilhões.

Independentemente de diferenças ideológicas —o professor me acusa de ter cometido erros e inconsistências para defender uma tese liberal—, não deveria ser possível que o TCU e o professor, empregando a mesma metodologia, encontrassem resultados tão diversos. Seria importante que o professor disponibilizasse a memória de seus cálculos para podermos entender a fonte da divergência.

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2021/11/piora-o-cenario-para-atividade-em-2022.shtml

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.