Folha (publicado em 21/11/2021)

Sándor Márai (1900-1989) foi um escritor húngaro que conheceu grande êxito em seu país até a Segunda Guerra Mundial. Antifascista declarado em uma Hungria aliada ao nazismo, deixou definitivamente o país em 1948, ao dar-se conta de que o domínio soviético era tão restritivo à sua liberdade de cidadão e escritor como fora o jugo nazista.

Exilou-se nos Estados Unidos, onde viveu em relativa reclusão e continuou a escrever, sempre em húngaro sem jamais permitir que seus livros fossem publicados na Hungria. Suicidou-se em 1989, solitário, após as mortes de sua mulher e de seu único filho adotivo, poucos meses antes da queda do muro de Berlim. Suas obras foram redescobertas nos anos 90 e várias delas foram editadas no Brasil pela Companhia das Letras, inclusive seu livro mais famoso, “As Brasas“.

Boa parte de sua obra é declaradamente autobiográfica. De livros como “Confissões de um Burguês”, “Terra, Terra!”* e seus diários*, que cobrem o período de 1943 até sua morte, emerge um homem de personalidade muito intensa, cujo caráter claramente reservado e altivo contrasta vivamente com uma dolorosa exposição do que vê como suas fraquezas e seus enganos.

Relata também, ou deixa subentendidas, experiências pessoais marcantes e até chocantes, que não procura classificar. Um homem fascinante, admirável, com o qual, no entanto, tenho dificuldade em fantasiar um encontro agradável, talvez por recear a sua brutal honestidade.

Terminei recentemente a leitura de um livro póstumo; “O que eu quis calar”*. Nesse livro escrito em 1950, mas publicado apenas em 2013, mais de 20 anos após sua morte, Márai cobre o período entre a anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938 e sua partida para o exílio, dez anos depois.

O escritor reflete profundamente sobre a história da Hungria, procurando explicações para a forma como as tiranias nazista e depois comunista trouxeram à tona os aspectos mais repulsivos da sua sociedade.

Ele relata a emergência do antissemitismo, a pilhagem dos bens dos judeus —e seu envio para os campos de extermínio após a efetiva invasão das tropas alemãs em 1944— e a forma como ambas as tiranias foram entendidas pelo grande grupo dos ressentidos, marginalizados pela “competição social, econômica e intelectual”, como o momento para as grandes “rapinagens e compensações”.

Acho que Márai sentiu vergonha —não apenas alheia, pois estes eram os seus compatriotas— e foi isso que ele quis calar. Ele tinha então 50 anos e poucas esperanças de poder retornar a seu país. Em sua vida já havia assistido à redução de dois terços do território da Hungria pelo Tratado de Trianon em 1919 —que inclusive moveu sua cidade natal, Kosice, para Tchecoslováquia— antes dos horrores recentes da Segunda Guerra e dominação soviética.

Ainda se entusiasmaria fugazmente com a heroica revolução húngara de 1956, esmagada em menos de um mês pelo Exército Vermelho. Ao escrever o livro era um homem maduro, que buscava explicações para a derrocada de seu país.

Assim busco eu também compreender nossos descaminhos, já entrado nos 60 anos, quando passamos a ver a morte como possibilidade concreta e abandonamos a ilusão de que os problemas do país se resolvam no nosso tempo de vida.

E houve razões, além da juventude, para pensar diferentemente no passado. As Diretas Já aos 25 anos, o fim da inflação aos 35, 12 anos de muito bons governos e um presidente de esquerda, operário, mostrando-se competente e desfazendo os temores dos conservadores —inclusive os meus— aos 45, o Cristo Redentor na capa da “The Economist” decolando rumo à liga dos países desenvolvidos, aos 50. Eu acreditei.

Mas a maré mudou. As disfunções do nosso sistema político, a condução irresponsavelmente populista da economia, a polarização alimentada pela corrupção e pelo ódio partidário, nos levaram sucessivamente à maior recessão de nossa história, ao impeachment de uma líder de temperamento autoritário que gritava com seus assessores e insistia em ser chamada de “presidenta” e sua substituição por um vice oportunista, que desperdiçou seu prestígio político ao receber pela porta dos fundos do Planalto a visita de empresário sem caráter, com o qual entabulou conversas vergonhosas.

O processo deságua na eleição do atual presidente, cujo dano causado ao país e à sua imagem foi cruelmente retratado pelo vídeo em que aparece perdido entre os líderes do G20, perambulando pelo salão, sem encontrar outra forma de aliviar seu isolamento, que não fazendo graça com garçons que sorriam constrangidos. Não percebi haver ali antagonismo em relação ao presidente do Brasil, apenas descaso, talvez desprezo. Foi o que mais doeu.

Ao ver as imagens, veio-me à mente o título do livro de Marai e o sentimento de “vergonha não apenas alheia”. Veio também a certeza de saber o que eu gostaria de calar.

*Inéditos no Brasil

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/candido-bracher/2021/11/imagem-de-bolsonaro-no-g20-causa-sentimento-de-vergonha-nao-apenas-alheia.shtml

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