Folha (publicado em 21/11/2021)

Saiu um dos mais importantes livros recentes de ciência social brasileira: “O Povo de Deus”, escrito pelo antropólogo Juliano Spyer e editado pela Geração em 2020.

Juliano viveu ano e meio em um bairro popular muito afastado do centro de Salvador. Em sua pesquisa de campo para a sua tese de doutorado defendida no University College London (UCL) sobre mídias sociais (“Mídias sociais no Brasil emergente”, publicada em 2018), Juliano constatou a importância das igrejas evangélicas na socialização da comunidade.

No livro sobre os evangélicos, Juliano apresenta um sumário, em linguagem fluente e sem grandes tecnicidades, do conhecimento sistemático que os antropólogos e os sociólogos adquiriram nas últimas décadas sobre os evangélicos.

Em uma sociedade pobre que passou por um agudo processo de transição demográfica e urbanização, sem que fosse acompanhado dos investimentos em educação, produziu-se uma parte grande da população que não tem acesso a serviços públicos nem tem redes de suporte e conexões. Segundo Juliano: “O crescimento do cristianismo evangélico no Brasil tem menos a ver com pastores oportunistas e carismáticos e mais com a influência das igrejas para melhorar as condições de vida dos mais pobres. (…) As igrejas evangélicas funcionam como Estado de bem-estar social informal, ocupando espaços abandonados pelo poder público”.

Ingressar na igreja tem efeitos sobre a redução do alcoolismo e da violência doméstica e acaba por empoderar as mulheres: “A conversão masculina aumenta indiretamente o poder feminino na relação, na medida em que o homem abre mão de ficar na rua, que é o seu espaço de liberdade, anonimato, farra, bares, relacionamentos paralelos”.

Ingressar na igreja evangélica acaba por desenvolver nas pessoas inúmeras habilidades socioemocionais absolutamente necessárias para o bom desempenho no mercado de trabalho moderno. Nas palavras de Juliano, “o ambiente de muitas das igrejas evangélicas estimula a disciplina pessoal e a resiliência dos fiéis, promove a cultura do empreendedorismo, fortalece a atuação de redes de ajuda mútua e incentiva o investimento em instrução profissional”.

Há uma ética conservadora nas igrejas evangélicas. Para elas, “a pobreza é um problema individual”. Independentemente de essa visão de mundo descrever bem ou não os fatos, ela parece ser mais produtiva, para os pobres, como meio de progresso do que a visão coletivista da Igreja Católica.

A atuação dos evangélicos, em relação à caridade, é bem diferente da dos católicos. Em vez de ajudar materialmente, o evangélico atua promovendo a conversão, para que a pessoa em condição de rua, por exemplo, ganhe hábitos novos e mude de vida.

Finalmente, o fato de os pastores viverem nas próprias comunidades faz enorme diferença. Como Juliano descreve no capítulo 5 de sua tese de doutorado sobre mídias sociais, uma das grandes dificuldades das escolas públicas é a distância física e socioeconômica entre os professores e os alunos.

Há motivos para críticas à comunidade evangélica. Juliano trata deles no 46º capítulo (o livro tem 48 capítulos curtos, distribuídos em sete partes). O que não podemos é sermos preconceituosos, confundirmos o comportamento muitas vezes pernicioso de algumas lideranças com a comunidade e não olhar para o fenômeno com a profundidade que ele merece.

O livro de Juliano nos pega pela mão e nos desvenda esse mundo desconhecido que há, muitas vezes, a poucos quilômetros de nossas casas.

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2021/11/povo-de-deus.shtml

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