Folha (publicado em 28/11/2021)

O Brasil precisa encontrar um caminho de crescimento inclusivo. Em tese, um país como o nosso, de escolaridade relativamente baixa, desigual, que investe pouco e regularmente vive crises macroeconômicas, deveria ter muito espaço para crescer de forma acelerada, acumulando capital institucional, social, humano, físico e de ideias. Seria um processo que os estudiosos denominam de convergência (aos padrões de vida dos países avançados).

Nos idos de 1987 o economista Lant Prichtet publicou no prestigioso Journal of Economic Perspectives um artigo bastante badalado dizendo que, nos países emergentes, “Divergência é o que se vê” (minha bem livre tradução). Faltavam instituições e sistemas políticos capazes de tomar decisões voltadas para o bem-estar da sociedade como um todo. Faltavam bons líderes também, claro. Países deveriam aprender a evitar caminhos que sistematicamente dão errado, mas tal não parecia ocorrer (nós que o digamos).

Neste mês, com base em dados atualizados, Michael Kremer (ganhador do Nobel ano passado) e colegas circularam na série do National Bureau for Economic Research um texto para discussão mais otimista, que documenta bastante progresso no último quarto de século. A olho nu dá para ver que a Ásia tem crescido bem mais rápido do que as economias avançadas. Menos conhecido é o desempenho da África Subsaariana, que, com todos os seus problemas, há muitos anos vem convergindo também.

Há, no entanto, uma grande região do mundo que vem ficando para trás: a América Latina. Temos que encarar a realidade que hoje o Brasil está fora da trajetória de convergência, vítima de populismos e propostas econômicas equivocadas.

Ano que vem teremos a chance de escolher um novo presidente. A campanha já começou. O quadro econômico e social é frágil. Estaremos diante de uma escolha crucial. O país não aguenta mais incompetência. Já sabemos que todos os candidatos prometerão crescimento, melhores serviços públicos, menos desigualdade, mais oportunidades, mais segurança, menos corrupção, melhor educação e saúde e por aí vai. Infelizmente, o eleitorado terá enorme dificuldade para identificar quem poderá entregar resultados concretos.

Em geral os discursos de campanha dizem que tudo é possível ao mesmo tempo e só depende da vontade do governante. Qualquer desvio desse caminho mágico é acusado de macabra austeridade. Poucos se dão conta que austeridade nunca foi a regra no Brasil. Prova disso é que nos últimos 30 anos o gasto público total subiu de 25% para 33% do PIB. Austeridade?

Bem, alguma austeridade ocorreu sim, com o investimento público, que de um pico de 5% do PIB em 1969 colapsou para cerca de 1,5% hoje. Claramente o arrocho ocorreu no lugar errado. Mas, no geral, não houve austeridade. O que faltou foi definir prioridades. Esta lacuna se estende para o lado da receita, que é no Brasil um espaço repleto de distorções e injustiças. E inclui também o padrão de endividamento do país, agora em alta e já em nível que nos fragiliza e penaliza as gerações mais jovens.

A conjuntura atual reflete esse desgoverno. O Brasil vem se endividando desde 2014 sem, no entanto, crescer. “Abusou do cheque especial e do cartão”, e agora está pagando outra vez um juro elevado e tremendo de medo da inflação.

Um bom candidato deveria explicar como vai lidar com essas questões. Não será fácil, pois vai concorrer com mercadores de milagres. Uma possibilidade seria que cada candidato explicitasse suas prioridades exibindo publicamente um esboço de orçamento para 2023 (com gastos e receitas discriminados em grandes blocos). Seja como for, candidato que não apresentar com clareza suas prioridades e como vai atingi-las não deverá merecer confiança.

Será que algum candidato terá a coragem de abrir o jogo para o eleitorado? Melhor que tenha. Muitos acreditam que o povo não é capaz de entender assuntos tão complexos. Se esquecem que a população tem dado demonstrações de bom senso em situações de emergência, especialmente se bem informada.

Exemplos recentes incluem a reeleição no primeiro turno de FHC, logo após o anúncio de um duro ajuste fiscal, e a forte adesão à vacinação na atual pandemia. O estado geral da nação representa uma clara emergência.

É bem possível que um candidato que demonstre que entende a dura realidade do país e apresente respostas concretas aos desafios seja recompensado nas urnas. E mais: assim eleito, o candidato terá um mandato que lhe dará condições de entregar resultados. Chegou a hora de apostar no eleitorado.

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/arminio-fraga/2021/11/hora-de-apostar-no-eleitorado.shtml

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