Folha (publicado em 28/11/2021)

Na pandemia, todos ficamos fechados em casa por quase 18 meses. Fechados em casa, consumimos muito menos serviços —restaurantes, teatro e cinemas, eventos esportivos, turismo etc. Fechados em casa, subiu muito nossa demanda por bens. Tratei desse tema na coluna de 8 de maio.

Essa recuperação da economia mundial, com a demanda muito desequilibrada para bens, gerou forte elevação da produção de bens de consumo duráveis, cuja fabricação é intensiva em chips, energia, matérias-primas metálicas e comércio internacional.

O excesso de consumo de bens duráveis gerou repentina queda dos estoques a partir do terceiro trimestre de 2020. A resposta dos produtores à queda dos estoques foi uma antecipação dos pedidos. Os produtores nos diversos elos das cadeias produtivas anteciparam os pedidos defensivamente, o que causou a desorganização da produção.

Esse comportamento defensivo desorganizador das cadeias produtivas é conhecido na literatura de efeito chicote (bullwhip effect).

Assim, o padrão de recuperação das economias desde o segundo semestre de 2020 causou forte inflação de bens industriais. No Brasil, por exemplo, a inflação de bens industriais, segundo a prévia da inflação de novembro, o IPCA-15, foi de 11% de janeiro a novembro de 2021, ante 2% para o mesmo período de 2020.

Essa inflação mais intensa no Brasil é também um fenômeno que tem se espalhado pelo mundo. Nos Estados Unidos, em outubro, a inflação ao consumidor acumulada em 12 meses foi de 6,2%.

O que preocupa é que desta vez os núcleos de inflação estão muito sensíveis aos choques de preços. Os núcleos de inflação são índices derivados do índice oficial, construídos com o objetivo de dar mais peso aos preços menos sensíveis aos choques e cujo comportamento responde à situação cíclica da economia, isto é, se há excesso ou carência de demanda.

Os diversos núcleos para a inflação nos Estados Unidos rodaram em outubro, em 12 meses, a 4,5%, 4,1% e 3,1%. São, respectivamente, os núcleos por exclusão, médias aparadas e da mediana.

A grande dúvida hoje é o comportamento dos núcleos quando houver a reversão dos choques de preços, que deverá ocorrer ao longo de 2022, com maior intensidade no segundo semestre. É possível que a reversão dos choques leve à redução da inflação e dos núcleos. Nesse caso, o choque inflacionário não terá elevado a inércia inflacionária. Diferentemente, é possível que os choques de preços se revertam e a inflação não caia.

É possível que a inflação fique rodando em um novo nível mais elevado. Nesse caso, o Banco Central americano terá que agir mais intensamente para combater a maior inércia inflacionária. Essa dúvida será resolvida nos próximos seis meses.

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2021/11/inflacao-e-fenomeno-que-se-espalha-pelo-mundo.shtml

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