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Dilma, China e a inflação da Covid

Folha (publicado em 05/12/2021)

A ex-presidente Dilma Rousseff fez rasgado elogio à China no evento de lançamento de um livro. A China representaria “uma luz ante a situação de decadência e escuridão atravessada pelas sociedades ocidentais”.

A manifestação gerou muito rebuliço nas redes. No entanto, para além de a ex-presidente achar normal uma sociedade autoritária em que o controle social sobre o indivíduo atinge níveis nunca antes imaginados, há um ponto que passou despercebido.

A China representa um caso recente do modelo asiático de desenvolvimento. Duas são as principais características do modelo asiático. Primeira, fortíssimo intervencionismo do Estado no desenvolvimento econômico, com grande eficácia. Eles conseguem fazer, com competência e sem grandes desperdícios, o que tentamos no governo Geisel e ao longo do petismo.

Segundo, é a ideia de que os seguros públicos típicos de um Estado de bem-estar social não são atribuição do Estado, mas sim preponderantemente responsabilidade dos indivíduos.

Os riscos enfrentados pelos indivíduos em uma economia de mercado —perda de capacidade laboral pelo envelhecimento ou por invalidez; afastamento do trabalho por doença; necessidade de prover saúde e educação; risco de empobrecimento etc.— são de responsabilidade das famílias e não há necessidade de ação pública.

Esses fatos são claríssimos quando olhamos os números chineses. Em 2019, a despesa pública com educação, aposentadorias e saúde foi de, respectivamente, 3,6% do PIB; 3%; e 1,8%. Para as três áreas, o gasto público total é da ordem de 8,5% do PIB, ante mais de 23% do PIB do gasto brasileiro para as mesmas rubricas. Note que a sociedade chinesa é mais envelhecida do que a nossa e que esses números valiam há uma década, quando o PIB per capita era menor do que o brasileiro, e valem agora, quando o PIB per capita é superior ao nosso. Vale lembrar que a desigualdade por lá também não é muito menor.

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Ou seja, os países asiáticos, para financiar o esforço de desenvolvimento, escolheram jogar sobre os ombros dos indivíduos os seguros públicos. O resultado é que a taxa de poupança das famílias chinesas é de 22% do PIB, o que significa uma poupança da ordem de 50% da renda disponível das famílias. Para o Brasil, a poupança das famílias dificilmente ultrapassa 5% do PIB.

As diferenças de modelo têm sido notadas agora na epidemia. Tanto na América Latina e, em especial, no Brasil, quanto nos EUA e agora na Europa, como tratei na semana passada, a inflação tem se espalhado. No entanto, se olharmos a China, não há inflação por lá.

Sabemos que a inflação tem sido produzida por uma sequência imensa de choques. Tenho tratado deles desde o segundo semestre do ano passado. Os choques pressionaram os preços das commodities. De fato, a inflação na China das matérias-primas está altíssima. Em 12 meses a inflação ao produtor é de 14%, ante 1,5% da inflação ao consumidor, correspondente ao nosso IPCA.

Ou seja, na China não ocorreu o repasse da inflação ao produtor, que está forte, para a inflação ao consumidor. Motivo? Basta olhar a série do varejo. Ela está hoje 5% abaixo do último trimestre de 2019, enquanto, para a economia americana, encontra-se 22% acima.

Na China, não houve auxílio emergencial. O custo da quarentena e da perda de renda com a epidemia foi jogado nos ombros das famílias. Elas pagaram as suas contas com os recursos de suas poupanças financeiras e, com a normalização, precisam recompô-las. A demanda está fraca. Fico curioso em saber a opinião de Dilma sobre essas características do modelo chinês.

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2021/12/dilma-china-e-a-inflacao-da-covid.shtml?origin=folha

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Samuel Pessôa