Entrevistas

Arminio Fraga comemora Nobel de Economia 2022: ‘extremamente contente’

Brasileiro destacou a importância do trabalho dos três economistas para o entendimento das crises financeiras

Valor

Ex-presidente do Banco Central e sócio-fundador da Gávea Investimentos, Arminio Fraga comemorou nesta segunda-feira (10) o Prêmio Nobel de Economia para Ben Bernanke, ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), junto com Douglas Diamond e Philip Dybvig. O brasileiro destacou a importância do trabalho dos três economistas para o entendimento das crises financeiras, ainda que em contextos diferentes. E também ressaltou que é saudável o debate sobre o uso de recursos públicos por bancos centrais no socorro aos privados em ambiente de crises.

“Fiquei extremamente contente quando eles receberam esse prêmio. […] Em contextos diferentes, eles produziram trabalhos de enorme importância no entendimento das crises financeiras. Essas foram contribuições seminais”, disse.

Grande Depressão

No caso do Bernanke, Armínio destacou o trabalho sobre corridas bancárias e quebradeiras de bancos em seus estudos sobre a Grande Depressão. Em relação a Diamond e Dybvig, mencionou que o artigo da dupla sobre corridas bancárias – “Bank Runs, Deposit Insurance, and Liquidity” – explica a lógica intrínseca desses processos e discute temas afins, inclusive sobre o papel dos bancos centrais como emprestadores de última instância.

“Crises bancárias e financeiras são inevitáveis. O que dá para fazer é diminuir a chances que ocorram. E quando ocorrem, saber que providências tomar”, afirmou o ex-presidente do BC brasileirto.

Tema polêmico

O uso de recursos públicos para socorrer bancos em crise é um dos pontos mais polêmicos no debate sobre as crises financeiras. Arminio observou que o debate é saudável, embora destaque as consequências de uma crise bancária para a economia real e as dificuldades da tomada de decisão nos momentos de crise.

“A crítica que surge é que, no meio do que tipicamente é uma situação muito confusa, difícil, instituições são salvas quando não deveriam ser, credores são dessa maneira salvos com dinheiro público. É uma questão saudável, é importante discutir isso”, afirma.

O ex-presidente do BC do Brasil argumenta que hoje são aceitas de forma ampla as implicações econômicas quando há problemas no sistema de pagamentos, muito além do que se imaginava há décadas. Ele cita que as origens do debate são prévias à Grande Depressão, ainda no século XIX, e menciona o trabalho do jornalista britânico Walter Bagehot.

Nos tempos de Universidade de Princeton

Em um tom mais pessoal, Arminio contou que Ben Bernanke foi um dos leitores de sua tese de doutorado na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. “Ele estava saindo de Princeton quando eu cheguei. Tivemos encontros ocasionais naquele momento. Bernanke foi o quarto leitor da minha tese [de doutorado], tive pouco contato na época”, afirma.

“O princípio que definiu de maneira mais precisa o que um banco central deveria fazer foi discutido pelo Bagehot. Durante o pânico, livremente há uma taxa de mercado. Essa atuação visa a evitar pânicos que não têm muito fundamento. O diabo é que, na prática é muito difícil dizer se é uma questão ligada à liquidez ou à solvência. E a própria falta de liquidez provoca a insolvência, mesmo que em épocas normais o banco poderia estar solvente”, disse ele.

O sócio-fundador da Gávea Investimentos disse que acompanhou a carreira acadêmica de Bernanke, principalmente pelo interesse no tema estudado por ele, e depois se encontraram em conferências e simpósios internacionais. Arminio comandou o BC do Brasil entre 1999 e 2002, enquanto Bernanke esteve à frente do Federal Reserve em um momento posterior, entre 2006 e 2014.

Link da publicação: https://valor.globo.com/mundo/noticia/2022/10/10/arminio-fraga-comemora-nobel-de-economia-2022-extremamente-contente.ghtml

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