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O autoengano petista

Folha

Voltava de Brasília. Era primeiro semestre de 2016. Senta-se ao meu lado um deputado federal do PT. Já nos conhecíamos. Pessoa correta e genuinamente preocupada com o país.

Adoro ouvir e entrevistar as pessoas. Queria saber do deputado qual era a interpretação dele da nossa grande crise. No biênio 2015-2016 o PIB caiu 6,7%; e 8,2% para o PIB per capita.

O deputado me explica que as coisas não iam tão mal em 2014. O problema foi que Aécio Neves não aceitou o resultado da eleição e produziu a maior crise. A crise era política, não econômica. A crise econômica era consequência da crise política.

Fiquei surpreso. A fala do deputado parecia sincera. Não parecia ser fala para militância. O deputado genuinamente acreditava que a crise tinha sido culpa do Aécio.

O argumento é muito estranho. Um partido ganha quatro eleições seguidas. Outro perde as quatro. Quem ganha governa por 12 anos. Sabemos que no presidencialismo brasileiro o presidente é forte. Como se diz em Brasília, aquela caneta tem bastante tinta.

Eles tomam todas as decisões que querem. Termina na maior crise de nossa história e a culpa é do líder do partido que perdeu as quatro eleições seguidas. Somente petista consegue construir um argumento desse e acreditar. Deve ser dos casos mais extremos que se conhecem na história da humanidade de desresponsabilização coletiva.

Achei a história tão absurda que minha avaliação era que o deputado não acreditava 100% na versão que tinha para a nossa grande crise. Parece argumento da esquerda latino-americana que culpa os EUA pela pobreza da Venezuela e de Cuba.

No entanto, na campanha eleitoral, por mais de uma vez, Lula foi explícito em culpar Aécio “pela crise da Dilma”. Diz-se que se deve repetir uma mentira até que ela vire uma verdade. A frase é atribuída ao chefe da propaganda da Alemanha nazista. Aqui ocorre algo diverso. Repete-se uma mentira até que ela vire um autoengano.

Hoje, para os petistas, a tese de que a nossa grande crise não tem uma base econômica, mas é consequência essencialmente da crise política e iniciou-se com o gesto de Aécio, é hegemônica.

O argumento é muito estranho. Bolsonaro não aceitou o resultado eleitoral. Aliás, foi às vias de fato em 8 de janeiro. Não me consta que nosso PIB cairá 6,7% no biênio 2023-2024.

O problema com o autoengano petista é que ele impede que haja aprendizado coletivo. Se “a culpa foi do Aécio”, não há nenhuma relação de causa e efeito entre opções e escolhas de política econômica e nossa grande crise.

Todo o volume “Para não Esquecer”, livro cuidadosamente editado por Marcos Mendes, com 25 capítulos em que cada um apresenta uma política que não atende ao critério de custo e benefício social, pode ser jogado no lixo.

Assim, não há problemas em manipularmos o preço da gasolina e do diesel. Não há problemas em tentarmos refazer a indústria naval. Pela quarta vez em 70 anos? Não há problemas em tirar os gastos do PAC da meta de superávit primário. Não há problemas em a Petrobras voltar a construir refinarias. Não há problemas em o governo tentar interferir na Vale do Rio Doce. Pelo andar da coisa, a lista será longa e somente crescerá.

Continuaremos a andar em círculos e a tentar provar a validade do famoso princípio da contra indução finita enunciado por Mário Henrique Simonsen: “Das mesmas causas resultarão outras consequências”.

Será difícil sairmos da armadilha da renda média.

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2023/08/o-autoengano-petista.shtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Samuel Pessôa