Valor
Morreu o economista Francisco Lopes, criador do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), que fez parte do grupo da PUC-Rio que desenvolveu a teoria da inflação inercial – ponto de partida para uma série de programas heterodoxos de estabilização monetária que, em 1994, culminaram com o bem-sucedido Plano Real.
Francisco Lafaiete de Pádua Lopes, ou Chico Lopes, como era conhecido entre seus pares, teve uma parada cardíaca em 22 de abril, quando foi submetido a uma cirurgia para corrigir uma úlcera. Transferido para a UTI, faleceu nesta madrugada no Hospital Pró-Cardíaco, no Rio, aos 80 anos.
Foi interinamente presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 1999. Caiu em apenas 19 dias depois do fracasso da chamada banda diagonal endógena, um sistema de transição gradual do câmbio fixo para o flutuante.
Nascido em Belo Horizonte (MG), filho de Lucas Lopes, ex-ministro da Fazenda de Juscelino Kubitschek, Chico Lopes fez doutorado na Universidade de Harvard. Ele entrou na área econômica com o curso do Centro de Treinamento para o Desenvolvimento Econômico (Cendec) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e fez mestrado na Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro (EPGE/FGV).
Junto com dois egressos de universidades americanas – Dionísio Dias Carneiro e Edmar Bacha –, foi inicialmente para a Universidade de Brasília (UnB), onde o grupo planejava criar a “Cambridge do Planalto”. Na PUC-Rio, o mesmo grupo se encontrou mais tarde – e, com outros economistas, Lopes contribuiu no desenvolvimento da teoria da inflação inercial.
O conceito básico, que tem origem em pesquisas do ex-ministro da Fazenda Mario Henrique Simonsen, sustenta que a inflação se retroalimenta na economia por meio de mecanismos de indexação. Por isso, remédios ortodoxos puros, como altas de juros para desacelerar a economia, eram ineficazes para combater inflações em patamares tão altos como aqueles que o Brasil enfrentou desde meados da década de 1970 até o Plano Real, em 1994.
Lopes teve grande influência no Plano Cruzado, um programa de estabilização econômica que, entre outros pontos, fez um congelamento de preços para brecar a inércia inflacionária. O plano fracassou porque, num ano de eleições, o governo Sarney prorrogou o congelamento por tempo demais e deixou de tomar medidas necessárias de controle fiscal.
Nos anos seguintes, o Brasil seria um laboratório de programas de estabilização. Lopes teve um papel mais central, ao lado do economista Yoshiaki Nakano, no Plano Bresser, lançado em 1988, que também não deu certo.
Uma curiosidade é que participou, junto com o deputado Osmundo Rebouças (PMDB-CE), de um programa de estabilização também chamado de Plano Real – e um dos traços comuns com o programa que viria a ser, de fato, anunciado anos mais tarde pela equipe de Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda era o fato de que seria divulgado com antecedência e passaria por discussão no Congresso Nacional.
Formalmente, ele não fez parte do grupo que lançou o Plano Real, apesar de ter sido convidado por alguns de seus líderes. Mas participou informalmente das reflexões feitas por um grupo mais amplo de economistas que foram consultados.
Quando Persio Arida, um dos pais do Plano Real, tornou-se presidente do BC, Lopes assumiu a diretoria de política econômica. Arida saiu do governo, e Lopes tornou-se um dos grandes opositores do regime de bandas cambiais que era patrocinado por Gustavo Franco, então diretor de assuntos internacionais do BC.
Foi como diretor de política econômica que Chico Lopes criou o Comitê de Política Monetária (Copom), em junho de 1996. Alexandre Pundek, que foi consultor da diretoria de Lopes, lembra que o comitê foi criado com uma simples circular do Banco Central, com o apoio do então presidente do BC, Gustavo Loyola.
Em uma entrevista ao Valor, Lopes recorda que, no princípio, era necessário lembrar os demais diretores quando ia haver uma reunião – sobretudo, aqueles que tratavam de assuntos administrativos. Também havia a preocupação de manter colegas sob certa vigilăncia, para que não ficassem na tentação de discutir politica monetária nos corredores ou elevadores. “Alguns achavam que o Copom era uma excentricidade minha”, afirma Lopes.
Junto com o Copom, Lopes também introduziu no Brasil o sistema de duas taxas, a TBC e a Tban, que faziam o piso e o teto dos juros – eram as chamadas taxas lombardas, inspiradas na experiência alemã.
Nos primeiros anos, porém, o Copom teve pouca margem de manobra na definição dos juros básicos, que eram simplesmente determinados para garantir um nível para a taxa de câmbio – que, de fato, fazia o trabalho de controlar a inflação.
Uma sequência de crises internacionais no fim dos anos 1990, como a asiática e a russa, e a falta de um ajuste fiscal mais profundo levaram ao colapso do regime de câmbio administrado, em janeiro de 1999.
Franco, que já era presidente do BC, foi substituído por Lopes. Ele resolveu fazer uma transição suave do regime cambial, com a adoção de um complexo mecanismo batizado como banda cambial endógena. Seu princípio básico era ampliar a faixa de flutuação do dólar quando o mercado estivesse com maior calmaria. Com um anúncio improvisado, a medida foi mal recebida pelo mercado e abandonada em dois dias.
“Obviamente, foi uma proposta que tinha a ingenuidade de ser complexa, apresentada em um mundo de políticos”, disse Lopes, em um depoimento para projeto de memória do Banco Central. “Então, ninguém compreendeu bem como iria funcionar.”
Em 29 de janeiro de 1999, o Brasil sofreu um ataque especulativo, que incluiu a criminosa disseminação de boatos de que haveria quebradeira de bancos e confisco de poupança – o que contribuiu para os altos lucros de quem estava com apostas no mercado futuro na desvalorização do real. Isso selou a sua saída do BC.
Ele chegou a ser sabatinado para o cargo de presidente do BC, mas não houve tempo de assumir. Em seguida, o comando passou para o economista Arminio Fraga, que consolidou o Copom e instituiu o regime de metas para a inflação.
“Chico deixa saudades”, declarou Arminio. “Sua personalidade suave escondia uma mente irrequieta e independente. Tive a sorte de tê-lo como orientador no mestrado na PUC.”
Fora do BC, Lopes foi alvo de uma investigação no Congresso Nacional sobre a quebra dos bancos Marka e FonteCindam, e chegou a ser preso brevemente por ter se recusado a responder a perguntas de senadores em uma sessão.
Na gestão de Lopes, o BC havia vendido dólares abaixo do preço de mercado para encerrar as posições no mercado futuro do Marka e FonteCindam – cuja quebra, segundo o BC, representava um risco sistêmico porque poderia levar a um colapso no sistema de pagamentos da bolsa de futuros.
Lopes foi acusado de fornecer informações privilegiadas, junto com seus dois ex-sócios na empresa de consultoria Macrométrica, os irmãos Bragança, a Salvatore Cacciola, dono do Marka. O que nunca ficou explicado é como o banco quebrou, já que se alegava que recebia informações privilegiadas.
Lopes foi inocentado no processo criminal e, mais tarde, no processo civil. Mas, durante 26 anos, teve seu patrimônio congelado, em virtude de um processo administrativo que ainda corre no Tribunal de Contas da União (TCU).
Lopes deixa a esposa, Ciça Pugliese, a filha de seu primeiro casamento, Estefânia Maria Lopes, além dos enteados Bruno Pugliese e Sérgio Pugliese, que tinha como filhos. Também deixa os netos Sofia Lopes e Stela Lopes, filhos de Estefânia; e os netos Bernardo Pugliese, Frederico Pugliese, Raphael Pugliese, Marina Pugliese e Antonio Pugliese, filhos de seus enteados.
Repercussões
Persio Arida, ex-presidente do BC
“Francisco Lopes foi um grande economista e pensador. Se preocupava em estar atualizado com os últimos desdobramentos da fronteira do conhecimento da macroeconomia, mas se apercebeu logo da importância de ler e estudar os mestres do passado. Procurava fazer modelos macro consistentes, mas sempre adaptando-os aos nossos problemas e questões. O importante, dizia, é modelar do jeito certo. Não tinha medo de contrariar as opiniões vigentes, nem mesmo de revisar seus pontos de vista quando a realidade assim o impunha. Além de suas contribuições ao pensamento econômico brasileiro, que foram muitas, participou, de forma direta ou indireta, de quase todos os planos de estabilização feitos no Brasil, do Cruzado ao Real. Fomos colegas como professores do Departamento de Economia da PUC-Rio. Convidei-o em 1995 para ser diretor de Política Econômica do Banco Central para criar o Copom e nos ajudar no enfrentamento dos desafios da manutenção da estabilidade de preços no período imediatamente posterior ao Plano Real. Sua passagem como presidente do Banco Central foi infelizmente traumática, mas ele conseguiu dar uma volta por cima e manter o espírito firme o suficiente para se dedicar à uma reflexão profunda sobre psicanálise. Sim, psicanálise. Melhor demonstração da originalidade e inquietude de seu pensamento seria impossível. Além de manter sua consultoria macro, ele encontrou tempo e energia para empreender uma crítica ao impulso de morte Freudiano, substituindo-o pelo impulso lúdico, nossa propensão para manter uma vida ativa até que a morte nos alcance, publicando sua obra em inglês e depois em português. É uma grande perda.”
Gustavo Loyola, ex-presidente do BC
“Chico Lopes foi essencial para garantir que o Plano Real fosse bem sucedido, com sua participação nos debates da equipe econômica e depois na diretoria do BC. Na sua trajetória acadêmica, deu contribuições na teoria da inflação inercial.”
Marcio Garcia, professor da PUC-Rio
“Chico Lopes foi dos meus primeiros professores de macroeconomia. Aprendi muito com suas aulas, e com inúmeras conversas sobre economia brasileira. Economista brilhante e muito criativo, sempre voltado a melhorar nosso Brasil. Fará muita falta ao debate econômico.”
Edmar Bacha, economista
“Foi um dos grandes economistas de nossa geração. Fundador do programa de pós-graduação em economia da PUC-Rio, suas inovadoras reinterpretaçoes da natureza da hiperinflação brasileira foram fundamentais para a concepção dos mais diversos planos de estabilização, do Cruzado ao Real. Manteve-se intelectualmente atuante até o fim, através dos sempre criativos relatórios mensais de sua consultoria Macrométrica.”
Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda
Francisco Lopes teve fundamental contribuição para a formação de mais de uma geração de economistas brasileiros desde sua participação na criação do Departamento de Economia da PUC RJ no final dos anos 70. Seus textos sobre inflação e programas de estabilização nos anos 80 tiveram enorme influência no debate sobre o tema, assim como os trabalhos de sua consultoria Macrométrica, sempre lidos com interesse. Levei-o para conhecer Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda no início de 1994 e para o Banco Central em 1995 onde teve importante papel durante o primeiro mandato de FHC na Presidência. Vale ler seu excelente depoimento sobre sua formação e experiência profissional no livro “Conversas com Economistas Brasileiros”, Vol. II.”
Gustavo Franco, ex-presidente do BC
Chico foi meu professor no começo dos anos 1980, já era um dos grandes nomes da reflexão sobre o fenômeno da hiperinflação, nossa grande patologia, atuando no ensino e na pesquisa, na construção do Departamento de Economia da PUCRio, e também como formulador de políticas. Teve influência sobre praticamente todos os planos econômicos a partir do Cruzado (1986): é dele, inclusive, a expressão “choque heterodoxo”, título de um livro seu de 1986. É também dele, de 1996, o voto original na diretoria do BCB propondo a criação do Copom. Foi um gigante e um dos pioneiros nessa integração entre a academia (a ciência) e a vida prática (a política econômica).
PUC-Rio
“É com profundo pesar que registramos o falecimento, aos 80 anos, do Prof. Francisco Lafaiete de Pádua Lopes (Chico Lopes) que, a partir de meados dos anos 70, desempenhou papel pioneiro e crucial na rápida transformação do Departamento de Economia da PUC-Rio num dos mais conceituados centros de pós-graduação e pesquisa em economia do país.”
Link da publicação: https://valor.globo.com/financas/noticia/2026/05/08/morre-francisco-lopes-ex-presidente-interino-do-banco-central-no-governo-fhc.ghtml
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