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Desenrolando o Desenrola

Estadão

As motivações e os custos ocultos do Desenrola

Com a fanfarra de hábito, o governo anunciou novo programa de auxílio às famílias endividadas, o Desenrola 2. A presença do numeral sugere que o primeiro da linhagem não foi exatamente bem-sucedido: segundo dados do Banco Central, o endividamento corresponde a cerca da metade da renda anual, enquanto seu serviço compromete pouco menos de um quinto da renda mensal.

Não resta dúvida que houve forte elevação das dívidas, uma das fontes crescimento vigoroso do consumo nos últimos anos. Com efeito, entre 2021 e 2025 o consumo das famílias cresceu ao ritmo de 3,4% ao ano, acima da expansão do PIB, 3,0% ao ano. Para fins de comparação considerem que no mesmo período o investimento aumentou modestos 1,9% ao ano, pouco mais da metade da velocidade do consumo.

Não se trata de acidente de percurso: foi uma política deliberada, alimentada por maiores transferências federais ao público, bem como medidas que ampliaram o acesso ao crédito, como, por exemplo, a recente reforma dos empréstimos consignados para o setor privado. O presidente não se cansa de afirmar ser necessário “por dinheiro na mão do povo para fazer girar a economia”.

As consequências, diz o ditado, vêm depois, dentre elas não apenas a dificuldade de manter o consumo em expansão, mas também – e principalmente! – a insatisfação das pessoas com o atual estado de coisas, que, não por acaso, transborda na má avaliação do governo e do presidente. E justamente no ano eleitoral!

Para sanar o problema, ou melhor, para empurrá-lo com a barriga, foi criado o Desenrola 2. Não deve resolver a questão, mas dá um fôlego adicional de endividamento, em parte por aliviar as condições do crédito e em parte por criar incentivos (perversos) a nova tomada de empréstimos na expectativa que, mais à frente, papai governo há de dar uma mãozinha.

Notem, porém, que, como sempre em economia, isto não sai de graça. Parcela do alívio no custo do refinanciamento dos crédito da má qualidade vem do uso de recursos públicos, o Fundo Garantidor de Operações. Caso o tomador não tenha como pagar, o FGO se responsabiliza, o que permite aos bancos cobrar taxas mais baixas.

Assim, parte do risco deixa de ser dos bancos e passa a ser do contribuinte, o que torna o negócio bem mais atraente, graças ao meu, ao seu, ao nosso dinheiro, para usar a expressão imortal de Armínio Fraga.

O governo do “pai dos pobres” ajuda os bancos e, de quebra, tenta aumentar seu cacife eleitoral.

Como se diz, se você não sabe quem é o pato à mesa, não tenha dúvida: é você mesmo.

Link da publicação: https://www.estadao.com.br/economia/alexandre-schwartsman/desenrolando-o-desenrola-quais-sao-as-motivacoes-e-os-custos-ocultos-do-programa/

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Alexandre Schwartsman