Folha
Na coluna da semana passada, argumentei, baseado nos melhores estudos empíricos da última década e meia, que 50% da diferença de produtividade do trabalho entre o Brasil e os países ricos se deve às habilidades embutidas no trabalhador. Os 50% restantes resultam do entorno.
Os estudos mediram o ganho de renda de trabalhadores ao imigrar para os Estados Unidos. Se o entorno tem um peso relevante, o ganho de renda será maior. A leitora Tattiana Salles argumentou que pode haver viés de seleção. Quem imigra tem habilidades socioemocionais melhores, fato amplamente descrito pela literatura.
Os estudos contornam essa crítica pois medem o ganho de salário ao imigrar de uma mesma pessoa. A pessoa é observada anos antes de imigrar e anos em seguida à imigração. Tempo longo o suficiente para permitir a plena aclimatação à nova sociedade.
Há uma dificuldade. É possível que, ao imigrar, haja uma deterioração ou perda de suas habilidades. Que as habilidades não sejam perfeitamente transferíveis de um mercado de trabalho para o outro. Esse fato, que deve ocorrer, subestima o impacto do entorno na determinação da diferença de renda entre as economias.
Os autores controlam pela perda de habilidades decorrente da imigração. É possível saber a ocupação da pessoa. Adicionalmente, eles sabem se o imigrante tem inglês como língua materna ou não. Finalmente, há pessoas que imigram já tendo uma oferta de emprego. Considerando todos os ajustes para esses diversos casos de diferentes graus de perda de habilidade ao imigrar, eles chegam a um impacto das habilidades embutidas que varia de 45% até 59%. Ou seja, 50% parece ser uma boa estimativa dos efeitos dos fatores embutidos sobre a produtividade do trabalho. Resenha recente encontra-se neste link.
Muitos leitores lembraram que, nos EUA, os trabalhadores têm uma quantidade maior de capital físico à sua disposição. É fato. No entanto, em razão da mobilidade internacional do capital, não há diferenças importantes de rendimento do capital entre países. Ou seja, o menor estoque de capital por trabalhadores em um país resulta do fato de a produtividade sistêmica e a dotação de capital humano serem menores. Evidentemente, essa conclusão não se aplica ao capital público, principalmente em mobilidade urbana, no qual o retorno social é muito maior do que o retorno privado.
Nos últimos 20 anos, a literatura tem mostrado que parcela importante dos 50% que são devidos ao entorno, na explicação das diferenças de produtividade entre as economias, deve-se a instituições que estimulam a má alocação do capital e do trabalho. Várias regras tributárias e trabalhistas subsidiam, nos países de menor produtividade, empresas ineficientes, em geral pequenas, estimulando uma alocação ruim dos fatores de produção.
Vários leitores argumentaram que faltou na coluna da semana passada análise das diferenças de gestão. Será que parte importante da produtividade não se deve ao fato de os gestores brasileiros, na média, serem piores? Há uma literatura relativamente recente, sob a liderança do professor de Stanford Nicholas Bloom, que tem documentado que de fato há diferenças sistemáticas da qualidade de gestão. A gestão das empresas nos países de menor produtividade é pior. Os motivos ainda não estão claros, e é possível que a má alocação tratada no parágrafo anterior explique parcela do fenômeno.
Nesta e na coluna anterior, apresentei o que sabemos dos motivos que explicam a baixa produtividade do trabalhador nos países mais pobres. Desde o artigo clássico de 1999 de Robert Hall e Charles Jones, muito aprendemos.
Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2026/05/gestao-tambem-influencia-na-produtividade.shtml
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