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O choque de petróleo e as reações políticas

Disciplina fiscal e monetária e instituições críveis tendem a gerar resultados melhores do que um hiperativismo estatal

Valor

O atual choque de petróleo pode ser a maior disrupção de oferta da commodity na história, mas não é a primeira. E, como o futuro costuma ecoar o passado, o estudo dos choques anteriores traz lições sobre as reações de política econômica. Nesse contexto, os relatórios anuais do Banco de Compensações Internacionais (BIS) oferecem uma perspectiva interessante sobre como as autoridades da época reagiram à elevação dos preços internacionais da matéria-prima. A reação refletiu as opiniões então dominantes sobre os limites e papel da política econômica, bem como diferentes instituições e preferências.

Mesmo com diferenças nacionais no que se refere, por exemplo, ao papel das políticas industriais e às instituições do mercado de trabalho, os primeiros choques ocorreram quando a política econômica, na maioria dos países desenvolvidos, seguia os conceitos e premissas de um certo keynesianismo anacrônico. O princípio básico era que combater o desemprego seria muito mais difícil e importante do que controlar a inflação. Esse consenso, que se estendia ao longo do espectro político, refletiu a experiência do período entreguerras, quando o desemprego atingiu taxas exorbitantes — no máximo, 20% nos EUA, 24% na Alemanha e 17% no Reino Unido (RU), segundo estudos recentes. Nessa última economia, por exemplo, onde o keynesianismo originário causou mais danos, um mantra da política econômica dos 1960 e 1970 era que o desemprego não poderia ultrapassar um milhão de trabalhadores, levando em conta que chegou a cerca de três milhões no período entreguerras. O pior cenário, para esse consenso, era justamente um choque de oferta, que ocasionaria tensão entre estabilidade monetária e o “pleno” emprego, o que veio a ocorrer em 1973.

Disciplina fiscal e monetária e instituições críveis tendem a gerar resultados melhores que o hiperativismo estatal

O choque foi, em termos da oferta global de petróleo afetada, bem menos relevante do que o atual (7% ante 20%). Mas atingiu uma economia mundial que era muito mais dependente em petróleo, e que já estava vivendo um processo de aceleração inflacionária — a inflação anual foi 1,5% e 1,0% nos EUA e RU em 1960, e atingiu 5,8% e 6,4% dez anos depois, respectivamente. A aceleração inflacionária, nos EUA, resultou da expansão fiscal derivada da Guerra do Vietnã — algo para termos em mente no momento atual —, que foi acompanhada por aumento de gastos sociais e, importante, acomodada pelo Fed. Essa tendência inflacionária acabou inviabilizando o regime de taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis, estabelecido na conferência de Bretton Woods, e, assim, removeu a âncora nominal utilizada pela maioria das economias desenvolvidas no período. Ao colapso do regime de Bretton Woods, seguiu-se um período de experimentação e adaptação da política monetária, que duraria os próximos 10-15 anos.

A leitura dos relatórios anuais do BIS de 1974-1975 oferece uma perspectiva interessante sobre as reações de política econômica ao primeiro choque do petróleo. Eram economias sem uma âncora nominal clara, e com gestores comprometidos em conter o desemprego às expensas da inflação. A tendência inflacionária tornou impraticável o regime de taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis, estabelecido pela conferência de Bretton Woods, eliminando, desse modo, a âncora nominal utilizada pela maioria das economias desenvolvidas naquele período. As autoridades enfrentaram o dilema lançando mão de algum controle de demanda, ainda que tentativo, e, no jargão do período, “políticas de rendas” — eufemismo para controles de preços e salários. Chama a atenção que os banqueiros centrais do período, a julgar pelos relatórios, tinham uma visão crítica sobre o regime de taxas de câmbio flutuantes, com observações sobre sua excessiva volatilidade que remetem às análises dos anos 1920 e 1930.

A caixa de ferramentas era ampla. Os governos da época recorreram a políticas de renda, controles de preços e salários, que não funcionaram (nada surpreendente para um leitor brasileiro), controles de crédito, políticas fiscais cambiantes, controles sobre o comércio exterior e, em vários países, fluxos de capitais. No Reino Unido e na Itália, mecanismos de indexação salarial foram adotados. A quantidade de instrumentos revela a crença que o Estado deveria e saberia controlar, em boa medida, o ciclo econômico e também que, sem intervenção estatal, o sistema de preços, a começar pela taxa de câmbio, não estaria à altura do desafio.

As poucas exceções à ortodoxia keynesiana entre os países desenvolvidos foram Alemanha Ocidental e Suíça. Na primeira, o Bundesbank (banco central), adotou metas para o crescimento dos agregados monetários que acabaram balizando os reajustes salariais — enquanto no RU, o Banco da Inglaterra ajustava a postura de política aos reajustes concedidos e ao seu impacto fiscal. Nos EUA, o Fed alternava períodos de aparente aperto e distensão monetária, e superestimava recorrentemente a taxa de crescimento potencial da economia. As metas de crescimento monetário alemãs foram desenhadas para influenciar associações patronais e sindicatos, e, como o banco central era autônomo e crível, lograram esse objetivo. Na prática, o país trabalhou com taxas de juros reais positivas na maior parte do período, ao passo que elas foram negativas nos EUA e RU. As médias para o período são 2,1% a.a., -0,9% a.a. e -3,7% a.a., na Alemanha Ocidental, EUA e RU, respectivamente.

A diferença de resultados foi substancial. Em meados da década, os EUA conviviam com taxas de desemprego e de inflação (ambas) em torno de 9%, o Reino Unido teve uma taxa de inflação superior a 20%, e foi compelido a pedir socorro ao FMI em 1976. Especificamente, os índices de miséria (soma das taxas de inflação e desemprego) dos EUA, RU e Alemanha Ocidental atingiram picos, na esteira do primeiro choque do petróleo, em 1975: 17,6%, 28,3% e 10,7%, respectivamente. As respectivas médias entre 1970 e 1980 foram 14%, 17,6% e 7,9%.

Disciplina fiscal e monetária, com metas nominais explícitas e de amplo conhecimento, e instituições críveis tendem a gerar resultados claramente superiores à hiperatividade estatal — menos é, de fato, mais.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/mario-mesquita/coluna/o-choque-de-petroleo-e-as-reacoes-politicas.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Mario Magalhães Carvalho Mesquita