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A questão americana com o Pix

Criado pelo Banco Central, mecanismo virou alvo de nova investida tarifária porque incomoda as big techs americanas

Estadão

No documento em que o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos sugere a adoção de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, publicado na semana passada, chama a atenção a insistência com o Pix. São 20 menções em 34 páginas de texto — outras 73 são tabelas — e qualificações como “injusto” e discriminatório”. A meu ver, essa fixação se deve a um fato simples: o Pix é melhor e mais eficiente que todo o sistema de pagamentos dos Estados Unidos.

O Pix, uma criação do Banco Central, tornou-se alvo da nova investida tarifária porque é eficiente, gratuito para pessoas físicas e barato para empresas. Isso incomoda as big techs americanas, donas de sistemas de pagamentos que cobram taxas. Nada mais brutal que o fato, como diria Nelson Rodrigues, um patrimônio tão brasileiro quanto o Pix.

Trabalhei por mais de 20 anos em uma instituição financeira global, o BankBoston, sediada nos Estados Unidos. Conheci bem o sistema bancário americano. O sistema bancário brasileiro é reconhecido no mundo como um dos mais avançados em tecnologia, superior inclusive ao americano. Muitos americanos ainda pagam suas contas por meio do envio de cheques pelo correio. Existem outras modalidades mais modernas, mas nada se compara à facilidade que os brasileiros têm à disposição em seus telefones celulares.

Bancarização

Lançado em 2020, o Pix responde hoje por mais da metade das transações bancárias. Segundo dados do Banco Central, mais de 170 milhões de brasileiros usam Pix, o equivalente a mais de 80% da população. Sua expansão foi rápida por diversos motivos, mas quero ressaltar um: a capacidade de proporcionar confiança.

Diversos estudos feitos por economistas e cientistas sociais mostram que um dos problemas do Brasil é a falta de confiança interpessoal — que, entre outras coisas, encarece transações.

Como o Pix é instantâneo, supera essa barreira e alavanca negócios.

É possível entender que o governo americano seja agressivo com o Pix para abrir mercado para as big techs. Mas há um aspecto ignorado na história. O Pix trouxe para dentro do sistema bancário quem estava fora dele. A prova disso é que o valor médio das transferências feitas entre pessoas físicas fica abaixo de R$ 200. Não se trata, portanto, de uma questão apenas comercial, mas de democratização do acesso ao sistema bancário para pequenos comerciantes, empreendedores individuais e pessoas pobres.

É a eficiência que faz do Pix um alvo óbvio para investidas de empresas americanas interessadas no mercado brasileiro de pagamentos.

Link da publicação: https://www.estadao.com.br/economia/henrique-meirelles/pix-melhor-sistema-pagamentos-estados-unidos/

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Henrique Meirelles