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Como a ilusão pode ser tão grande?

O crescimento impulsionado por estímulos fiscais pode criar uma sensação temporária de prosperidade, mas os sinais da dívida pública e dos juros sugerem riscos crescentes para os próximos anos

InfoMoney

Alguém que não acompanha de perto a economia poderia até não saber ou entender bem o que está acontecendo no país do ponto de vista econômico.

Mas quem minimamente acompanha a nossa economia sabe claramente que a nossa dívida pública em breve se tornará impagável, ela já é 80% do nosso PIB e cresce 4 pontos percentuais por ano.

Além desse crescimento acelerado, o governo continua ampliando gastos, mas classificando-os fora das contas e do arcabouço fiscal, como se isso fosse fazer diferença na percepção dos agentes, sejam eles investidores, empresários ou pequenos poupadores.

A verdade é que hoje já pagamos taxas de países no caminho da falência, juros reais de longo prazo acima de 8,5% e juros prefixados perto 14,5/15,0%.

Como a ilusão pode ser tão grande?

O crescimento impulsionado por estímulos fiscais pode criar uma sensação temporária de prosperidade, mas os sinais da dívida pública e dos juros sugerem riscos crescentes para os próximos anos

Alguém que não acompanha de perto a economia poderia até não saber ou entender bem o que está acontecendo no país do ponto de vista econômico.

Mas quem minimamente acompanha a nossa economia sabe claramente que a nossa dívida pública em breve se tornará impagável, ela já é 80% do nosso PIB e cresce 4 pontos percentuais por ano.

Além desse crescimento acelerado, o governo continua ampliando gastos, mas classificando-os fora das contas e do arcabouço fiscal, como se isso fosse fazer diferença na percepção dos agentes, sejam eles investidores, empresários ou pequenos poupadores.

A verdade é que hoje já pagamos taxas de países no caminho da falência, juros reais de longo prazo acima de 8,5% e juros prefixados perto 14,5/15,0%.

A deterioração fiscal e a perda de credibilidade

É difícil entender como o governo que está produzindo essa situação, que vê claramente o processo de deterioração, afinal, a cada novo leilão de rolagem de títulos do Tesouro, as taxas ficam mais altas, não se preocupa em como encontrará a situação econômica ano que vem após as eleições.

Caso não tenhamos o início  de um importante processo de ajuste das contas públicas na virada para o novo governo, teremos uma crise como a muito tempo não vemos.

O que tem sido dito pelo responsável pelo programa de governo, Sérgio Gabrielli, caso Lula seja reeleito, é o mesmo que a equipe atual tem dito, “está em curso uma importante melhora fiscal”, quando sabemos que o que está acontecendo é exatamente o contrário, os números são absolutamente categóricos nessa direção.

O crescimento impulsionado pelo gasto público

O ciclo econômico está contando a mesma história. A política monetária esteve em território restritivo — em alguns momentos fortemente restritivo — ao longo dos últimos três anos consecutivos, mas com poucos resultados visíveis sobre o crescimento agregado da economia.

Esse processo — no qual a expansão fiscal neutraliza a política monetária restritiva, mantém os juros elevados e reduz o crescimento futuro — traz uma consequência clara: choques de crescimento impulsionados pela política fiscal tendem a ser altamente temporários ou, em essência, ilusórios.

Essa ilusão já aparece claramente nas expectativas de que o impulso ao crescimento proporcionado pelo ano eleitoral será transitório.

As projeções no Focus para o crescimento do PIB em 2026 começaram o ano em 1,8%, abaixo das estimativas para o crescimento potencial (aproximadamente 2%), refletindo o efeito acumulado da política monetária restritiva.

Desde meados de fevereiro, porém, essas projeções passaram por sucessivas revisões para cima, acompanhando o anúncio de diversas medidas de estímulo por parte do governo.

A revisão observada a partir de maio coincidiu de forma bastante próxima com uma série de novos anúncios, elevando o volume total de desonerações do imposto de renda, linhas de crédito subsidiadas, crédito habitacional, programas de renegociação de dívidas e benefícios tarifários para famílias de baixa renda para aproximadamente R$ 215 bilhões.

O aspecto mais interessante é que as revisões das projeções para o crescimento de 2027 seguiram exatamente a direção oposta: ao mesmo tempo em que as estimativas para 2026 eram elevadas, as de 2027 foram reduzidas.

O momento dessas revisões sugere fortemente que o impulso fiscal decorrente das medidas recentes será temporário e, na prática, será devolvido em 2027.

O preço de antecipar o crescimento

As consequências estruturais desse crescimento ilusório são duas. Em primeiro lugar, a frequência dos impulsos fiscais levanta questões importantes sobre como definir o crescimento potencial da economia.

Em princípio, o longo período de expansão da dívida pública tende a inflar artificialmente as estimativas recentes de crescimento potencial, já que a contribuição de políticas fiscais sem fonte permanente de financiamento talvez devesse ser tratada como um impulso pontual, e não como parte de uma tendência sustentável.

A segunda consequência estrutural diz respeito aos riscos que esse crescimento ilusório cria para a qualidade institucional no longo prazo.

O mecanismo pelo qual maior crescimento hoje resulta em queda de crescimento no futuro ocorre devido à confiança de que a política monetária continuará neutralizando impulsos fiscais pró-cíclicos.

Embora a credibilidade do BCB tenha sido um importante pilar ao longo da maior parte dos últimos dois anos, ela não pode ser considerada garantida.

O risco de repetir erros do passado

Será isso uma ilusão da perspectiva política também? Será que a realidade não afeta a percepção do governo e sua proposta para um eventual novo mandato?

O que parece, na verdade, é que está em curso uma tentativa de, por meio de uma forte narrativa, repetir o que ocorreu na reeleição da Dilma, onde o governo ficou “escondendo“ o quanto estávamos indo para o buraco e assim que eleito o governo “mudou de opinião“ e tentou um ajuste.

Totalmente na direção oposta do seu discurso anterior à eleição.

Claro que isso foi visto como uma fraude eleitoral naquela época e com isso o governo reeleito acabou perdendo totalmente a capacidade de implementar seu plano de governo, o Congresso desembarcou completamente e a presidente acabou sendo impichada.

Será que precisamos ter uma nova crise para que o governo possa acordar?
Será que ganhar a eleição é mais relevante do que de fato enfrentar as nossas importantes questões nacionais? Mesmo que isso queira dizer um novo mandato com uma conjuntura completamente estressada e o país com grandes dificuldades para avançar?

Este é o caminho que estamos trilhando, mais uma vez estamos empurrando com a barriga o ajuste tão necessário, fundamental na verdade para que minimamente possamos endereçar o que os nossos cidadãos merecem.

Este artigo tem as co-autorias de Luiz Fernando Figueiredo, sócio e conselheiro da Jubarte Capital e Ben Mandel, sócio e economista chefe da Jubarte Capital.

Link da publicação: https://www.infomoney.com.br/colunistas/luiz-fernando-figueiredo/como-a-ilusao-pode-ser-tao-grande/

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Luiz Fernando Figueiredo