Projeto acompanha 2.000 crianças nascidas no segundo semestre de 2023 para entender em que medida o baixo aprendizado dos alunos nas escolas está relacionado com problemas no seu desenvolvimento infantil
Valor
A vida das crianças brasileiras nunca foi fácil, especialmente para as nascidas em famílias mais pobres, pois têm que enfrentar dificuldades em todas as fases da vida. Tudo começa com a tentativa de achar uma vaga na creche, passa por viver em uma vizinhança com alta criminalidade e por estudar em escolas públicas de baixa qualidade e termina com as poucas oportunidades no mercado de trabalho formal, devido à sua baixa qualificação e à discriminação. Atualmente, além destes problemas, estão surgindo outros, que afetam as crianças de todas as classes sociais, como o agravamento da saúde mental das mães e as mudanças climáticas. Como estes novos problemas estão afetando a geração de brasileiros que está nascendo agora?
A primeira infância compreende o período entre a gestação e os 6 anos de idade. É nesse período que são construídas as estruturas e circuitos cerebrais necessários para a realização de tarefas que vão se tornando cada vez mais complexas. Esta estrutura cerebral vai sendo esculpida a partir da interação da criança com o meio ambiente. Durante esses períodos de rápido desenvolvimento, o cérebro tem muita plasticidade e será diretamente afetado pelas experiências da criança. Nesta fase, a criança tem que receber estímulos adequados dos cuidadores para que elas possam desenvolver suas habilidades cognitivas e socioemocionais e, mais tarde, aprender com mais facilidade na escola.
Para analisar como ocorre o processo de desenvolvimento infantil no Brasil, criamos, com pesquisadores de várias universidades e financiamento da Fapesp e da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, o Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância (CPAPI). Em um dos projetos, o CPAPI está coletando dados de 2.000 crianças nascidas no segundo semestre de 2023. É um estudo longitudinal, em que seguimos uma mesma geração ao longo do tempo, por vários anos. Através deste projeto, vamos procurar entender em que medida o baixo aprendizado dos alunos brasileiros nas escolas está relacionado com problemas no seu desenvolvimento infantil.
Como estes objetivos, coletamos vários dados junto às crianças e suas mães. No nascimento, colhemos uma amostra de sangue do cordão umbilical, para examinar como os fatores genéticos e epigenéticos afetam o futuro das crianças. Quando elas tinham 6 meses de idade, coletamos dados detalhados sobre o desenvolvimento infantil e depressão materna, gravamos vídeos para decodificar como se dá a interação entre a mãe e o filho e pedimos para as mães colocarem relógios nos pulsos das crianças, para sabermos como elas dormem. Aos 18 meses, coletamos também informações sobre experiências negativas e momentos de discriminação das próprias mães quando elas eram mais jovens.
Os resultados iniciais deste projeto já sinalizam uma grande preocupação. Cerca de 40% das mães tinham sido diagnosticadas por médicos com problemas de saúde mental antes da gravidez, 27% delas com problemas de ansiedade e 13% com depressão. Isto é preocupante porque episódios de depressão antes da gravidez estão bastante relacionados com a ocorrência de depressão pós-parto, que já afeta uma grande proporção de mães atualmente. Várias pesquisas mostram que a depressão pós-parto da mãe impacta o desenvolvimento das crianças, pois a mãe deprimida tem muitas dificuldades para interagir com seus filhos e passar os estímulos necessários para o seu desenvolvimento.
Assim, para mudarmos a trajetórias de desenvolvimento das crianças brasileiras, o primeiro passo será cuidar da saúde mental das futuras mães. Este é um problema mundial, com vários estudos mostrando que a depressão juvenil é um dos principais problemas de saúde pública hoje em dia, especialmente entre as mulheres. Algumas destas pesquisas mostram que o uso frequente das redes sociais é uma das principais causas deste problema. Vale notar que esta epidemia independe da situação social, afetando jovens de todas as classes.
O outro fator importante que está aparecendo nas pesquisas é o impacto das mudanças climáticas, um dos fenômenos que mais preocupam a humanidade hoje em dia. Basta dizer que, se em 1980 somente 20% dos municípios brasileiros enfrentavam ondas de calor durante o ano, em 2020 esta parcela já atingiu 60%. Os efeitos destas ondas de calor são ainda mais sérios nas mães grávidas, devido às mudanças fisiológicas que ocorrem durante a gravidez para que mãe possa sustentar a placenta e o bebê. A produção de calor pelo bebê em crescimento depende inteiramente da mãe para se dissipar. Além disto, o cérebro da criança em desenvolvimento também pode ser diretamente afetado pelas ondas de calor. Dependendo da sua intensidade, estas ondas podem provocar malformações congênitas e até mesmo a perda do bebê.
Estes efeitos já foram quantificados nos bebês que estamos acompanhando na nossa pesquisa. As crianças que passaram por ondas de calor durante a gestação nasceram com um peso médio 17 gramas menor e comprimento 0,1 centímetro menor para cada dia de calor extremo do que as que não passaram. Além disto, estes bebês tiveram uma probabilidade dois pontos percentuais maior de nascerem com malformações. Estes impactos ocorrem porque as ondas de calor impactaram a saúde das mães durante a gravidez. Mães afetadas pelas ondas de calor têm maior probabilidade de terem tido desmaios, pressão alta, diabetes e eclampsia, como previsto nos estudos fisiológicos.
Em suma, as pesquisas estão mostrando que, antes mesmo de nascerem, as crianças sofrem impactos externos aleatórios que poderão afetar a sua trajetória de vida. Os principais problemas que estão surgindo atualmente são o grande aumento dos problemas de saúde mental das mães e as mudanças climáticas. Para lidar com estes impactos, será necessário, em primeiro lugar, reforçar as políticas públicas com foco nas futuras mães, para diagnosticar e tratar seus problemas psicológicos. Para atenuar os efeitos das mudanças climáticas, será necessário melhorar os mecanismos de proteção das mães em períodos de calor extremo, incluindo avisos antecipados da ocorrência destes períodos, para que as mães possam procurar abrigo.
Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/naercio-menezes-filho/coluna/novos-problemas-para-as-novas-geracoes.ghtml
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