Entrevistas

‘O BC tomou um golaço’, diz Arminio Fraga sobre caso Master

Para ex-presidente do BC, caso foi “falha gritante do sistema”

Valor

O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga disse nesta sexta-feira (29) que a crise do Banco Master foi uma “falha gritante do sistema”. Ele criticou o fato de a legislação dar brecha ao complexo sistema de cotistas de fundos usado no esquema de fraudes para tornar a estrutura opaca e difícil de rastrear.

“Não existe isso, um banco que tem um monte de fundos que ninguém sabe o que tem dentro, um fundo que tem outro fundo. O BC tomou um golaço, mas eles vão sair dessa”, afirmou ele, durante palestra no 3º Congresso Brasileiro de Direito do Mercado de Capitais, no Rio de Janeiro.

“Uma coisa é sigilo bancário pessoal. A outra coisa é estar fazendo uma investigação e o BC ter os poderes para exigir essa informação.”

Para ele, o problema “foi mais do Banco Central do que da CVM [Comissão de Valores Mobiliários]” e que já está havendo um movimento de correção. “O Banco Central tem o poder de ir à CVM e mandar pessoal próprio se a CVM não tiver estrutura para resolver.”

Fraga preferiu não comentar a decisão do governo americano de decretar que o PCC e o Comando Vermelho são organizações terroristas por ainda não ter estudado o assunto a fundo. Segundo ele, o momento é de enormes incertezas no mundo, com uma nova Guerra Fria, desta vez entre Estados Unidos e China, a invasão da Ucrânia, a guerra no Oriente Médio, a chegada da inteligência artificial e ameaças a democracias em vários países.

O Brasil também está em um momento de enormes desafios, prosseguiu ele. “Não é nenhum exagero dizer que nós estamos vivendo hoje uma crise institucional e uma crise de valores no Brasil. Isso é coisa muito séria.” Ele citou que o país precisa de diversas reformas, como a da previdência, de revisão da política fiscal, além de investimentos em educação e redução da desigualdade social.

“É como se fosse uma pessoa tirando água e a outra jogando água para dentro do convés. É a nossa política fiscal e de crédito expansionista com o Banco Central tentando atingir a meta que o próprio governo dá para ele. Não dá pra ter uma crise a cada ano seis ou dez anos. É paralisante”, comentou Fraga na palestra.

De acordo com ele, a Lei de Responsabilidade Fiscal, sancionada em maio de 2000, está sendo amplamente desrespeitada. “A lei foi um marco e ajudou a ancorar um receio geral de que Plano Real fosse naufragar, mas hoje é difícil não achar que ela não está sendo cumprida.” As regras podem ser aprimoradas, disse ele, e têm que ser cumpridas, mas é preciso “ir além.” “Ela foi um passo. Agora eu acho que ela está UTI.”

O ex-presidente do BC diz que não tem mais esperança de um “milagre” acontecer no país. “Mas acho que o Brasil também não tem uma vocação suicida. Não somos uma nação radical por natureza. Quem sabe em algum momento o Brasil poderia surpreender? Não é a minha previsão no momento, mas eu também não acho que seja impossível”, concluiu.

Link da publicação: https://valor.globo.com/financas/noticia/2026/05/29/o-bc-tomou-um-golao-diz-arminio-fraga-sobre-caso-master.ghtml

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