Brasil só terá juros civilizados se tiver uma discussão de projeto de país, diz CEO do Banco XP

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José Berenguer afirma que o custo do crédito é o maior obstáculo para empreendedores e pessoas físicas no Brasil, e defende uma discussão mais ampla para mudar a situação

Estadão

Nada supera a elevada taxa de juro e o custo do crédito quando se trata das dores e preocupações dos empreendedores e pessoas físicas brasileiros. É o que diz José Berenguer, um dos mais respeitados executivos do sistema bancário brasileiro e que, nos últimos 40 anos, esteve na liderança de importantes instituições financeiras nacionais e internacionais, como o JPMorgan.

À frente do Banco XP desde 2020, Berenguer não vê alívio futuro para o juro brasileiro e diz que esse é o maior freio para a economia brasileira. “A reclamação ou a dor de cabeça, o número um de qualquer cliente no Brasil, pode ser o cliente pequeno, o maior cliente corporativo ou na pessoa física, é o crédito, é o custo do crédito. O crédito é curto, o crédito é caro, o crédito, às vezes, é escasso”, afirma.

Para ele, a única solução para que o Brasil tenha um juro compatível ao de um país emergente é a discussão de um projeto de país. “Criamos incentivos para setores específicos e, no fundo, quem paga é a sociedade toda”, diz. Berenguer coloca nessa lógica títulos de investimento que têm benefício fiscal e recaem sobre um número excessivo de papéis. “Para que colocar o dinheiro para trabalhar, criando fábrica e emprego, se eu ganho 14% no incentivado?”

Sobre o banco, o CEO conta que a XP está na rota da internacionalização. Aqui, a previsão é do lançamento de uma linha de comércio exterior, ainda este ano, que já está em fase piloto. Também a XP está se posicionando para a oferta de crédito dentro do novo sistema das duplicatas escriturais, que está sendo desenvolvido pelo Banco Central em conjunto com o mercado.

Veja abaixo a entrevista completa.

Quais são as maiores dores que vocês ouvem dos clientes da XP?

Taxa de juro, preço do crédito. O preço do crédito é a reclamação número um, dois e três do empreendedor, do empresário, da pessoa física. Eu acho que esse é o grande freio de mão puxado do Brasil. Estamos com uma taxa de juro real de 10 pontos porcentuais. Se conseguir resolver a curva de juros do Brasil e ter uma curva de juros em patamar de país emergente, eu acho que a gente vai destravar muito o valor do Brasil.

O sr. vê alívio do juro em 2027?

Não vejo no futuro do Brasil, infelizmente. Temos uma dinâmica de funcionamento da economia que nos deixa numa armadilha, a do endividamento público crescente. Tem sempre justificativas, claro, só que a gente não consegue fazer com que esse endividamento se estabeleça. Segundo ponto é que temos uma estrutura de composição do spread bancário meio punitiva comparada com outros lugares. Tem alguns impostos que incidem sobre o custo do dinheiro, o custo da operação do sistema. Essas funções fazem com que o crédito chegue na ponta muito caro. A reclamação ou a dor de cabeça número um de qualquer cliente no Brasil, seja o cliente pequeno, o maior cliente corporativo ou a pessoa física, é o custo do crédito. O crédito é curto, o crédito é caro, o crédito, às vezes, é escasso. Do ponto de vista de competitividade, o crédito melhorou, temos mais players, mas ainda não é fluido como poderia ser. E é caro.

E o que falta, na sua opinião, para que o custo do crédito seja mais baixo?

Faltam algumas mudanças regulatórias para diminuir alguns aspectos do spread bancário. Falta pensar como a gente faz para ter uma curva de juros civilizada, de 6% ou 7%, em base nominal. Isso só vai acontecer quando houver uma discussão de projeto do país. O que acontece hoje? Damos subsídio, incentivo e seguramos os gastos na ponta. Só que isso custa. Fazendo uma analogia, será que o país precisa subsidiar alguns segmentos da economia em detrimento de todos? Eu prefiro ter uma discussão ampla de país que é o seguinte: o setor de infraestrutura é super importante para o Brasil então o Tesouro vai separar uma parte do orçamento para financiar, para subsidiar, para incentivar as obras de infraestrutura. Mas fazer isso às claras, não no subsídio de taxa.

O sr. está falando dos produtos de investimento incentivados?

Também. A gente precisa de tanto produto incentivado? A taxa de juros é alta. Criamos incentivos para setores específicos e, no fundo, quem paga é a sociedade toda. O título incentivado para mim talvez seja o grande fator de desequilíbrio. No mundo todo, você tem um ou outro título incentivado. Aqui você tem agrícola e um monte de coisa. Será que não era mais fácil a gente ter uma discussão fiscal ampla de gastos amplos e fazer com que todo mundo pague? Para que eu vou colocar o dinheiro para trabalhar, criando fábrica e emprego, se eu ganho 14% no incentivado? É difícil. De novo, é o freio de mão que o Brasil tem puxado e, para que essa situação melhore, é necessária uma liderança política super forte que ponha todo mundo na mesa, todos os setores, e tente melhorar esse negócio.

O sr. vê temor de uma possível reeleição do Lula? Sente isso nos seus clientes?

Não. O brasileiro aprendeu a tocar sua vida e seu negócio, independentemente do que aconteça em Brasília. Isso acontece em todo lugar do mundo. Eu trabalhava em um outro banco e mandei uma mensagem descrevendo o que estava acontecendo aqui na época em um outro governo, e a resposta do meu chefe foi: ‘Vou te dar um conselho: toda vez que eu presto atenção na capital do meu país, eu me distraio e tiro o olho do meu cliente. Não fica preocupado com esse problema do teu presidente e fique focado no teu cliente’. Não é que a gente não seja cidadão. Todo mundo quer o país melhor e todo mundo tem seu candidato. Agora eu acho que o brasileiro ficou refratário à discussão política. Você tem a polarização que todo mundo acompanha, mas o brasileiro aprendeu a fazer o seu dever de casa e tocar a sua empresa, se preocupar com seus clientes, funcionários, com a sociedade, e Brasília está lá. Que tem prós e contras. Mas é assim que eu vejo a cabeça do empresário brasileiro hoje.

Na XP, qual é o modelo de banco que está sendo perseguido?

Na pessoa física, clientes que tenham recurso aplicável. A gente estima que o Brasil tem em torno de 20, 25 milhões de pessoas com algum tipo de investimento. A gente hoje tem 5 milhões de clientes ativos e mais 4 milhões de inativos. Tem um espaço de crescimento muito grande. Esse cliente investidor consome vários produtos, ele tem um índice de inadimplência baixo, um cliente que tem mais recurso. Ele tem necessidades de longo prazo. Hoje temos o Open Finance; eu vejo a vida financeira inteira do cliente e enxergo de forma ampla. Na pessoa jurídica, a gente quer o cliente que é aplicador, que tem fluxo de caixa e que tem uma amplitude de demanda. A XP vai entregar em breve o serviço de comércio exterior, que chamamos de trade finance, e daí teremos o banco completo. Temos 100 mil clientes na pessoa jurídica, sendo 2 mil no ‘corporate’, com faturamento anual acima de R$ 700 milhões, e depois, no middle, temos 16 mil, e dali para baixo é pequeno e médio.

Quando o serviço de comércio exterior estará disponível?

Estamos no piloto. Mas, como o nosso cliente tem opção e é demandado pelo mercado todo, seja na pessoa física, seja na jurídica, sempre temos muito cuidado em colocar um produto ou serviço na prateleira, ver se o produto está impecável. Não só do ponto de vista de preço, mas de entrega, de pós-venda, porque dá problema. A gente trabalha com urgência, mas sem pressa.

A XP não quer ser só um banco no Brasil, correto? Como será essa internacionalização?

Estamos buscando uma instituição bancária de pequeno e médio porte nos Estados Unidos. O objetivo é atender os clientes brasileiros nas suas necessidades em dólar. Conta, empréstimos, etc. E isso também conversa com a iniciativa de comércio exterior, que é uma necessidade dos exportadores e importadores. Ter uma licença nos Estados Unidos pode significar funding mais barato e linhas de crédito mais baratas para os nossos clientes.

Alguma outra novidade?

Vamos integrar a nossa plataforma de crédito com as centrais de recebíveis, para estarmos aptos a oferecer crédito dentro do novo sistema das duplicatas escriturais. Vamos integrar com uma ou duas centrais que vão estar interligadas. Estaremos prontos para isso nos próximos meses.

Quando o sr. descreve os produtos, a estratégia, o serviço, tudo parece semelhante aos concorrentes. No que vocês querem se diferenciar?

Primeiro, eu quero focar no cliente. No CFO da empresa, no dono da empresa, na pessoa física. Quero entender o que ele precisa e não ficar empurrando o produto. A maioria dos nossos concorrentes trabalha com campanha de produto. Os bancos grandes de varejo têm o que eles chamam de ferramentas de avaliação da rede, que é muito baseado em produtos. Óbvio que está havendo uma mudança, mas ainda muito direcionada pelo produto. A gente quer ter uma visão do cliente e, com o Open Finance, com outras tecnologias, isso é possível. Com dados, você consegue ver que o cliente tem essas e essas características. E a gente está tentando migrar de uma segmentação baseada em tamanho do cliente para comportamento.

Isso é uma coisa que é diferente. A outra coisa é que eu tenho uma equação de custos inferior aos concorrentes, porque não tenho um sistema legado, tenho poucos sistemas legados e não tenho rede. Eu tenho os agentes autônomos, que são a minha rede, mas eles são independentes. Eles têm seu próprio custo.

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As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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