A reeleição de Lula relembra o segundo governo Dilma
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“Em 2002 ninguém conhecia Lula. Hoje os investidores podem até ter dúvida se um Lula 3 será mais parecido com o Lula 1 do que com o Lula 2, mas ninguém acha que ele vai fazer loucura.” Essa frase resume o que muita gente pensava em 2023. Quatro anos depois, loucuras cometidas, como o aumento de 431 bilhões de reais (a preços de hoje) no gasto primário entre 2022 e os doze meses até agosto de 2026, além das promessas de mais 88 bilhões entre o primeiro e o segundo turnos, ainda me aparecem desavisados perguntando se dá para acreditar que a escolha de Fulano de Tal como ministro da Fazenda significaria o retorno da sanidade ao Palácio do Planalto. A resposta é não.
Certas coisas não ocorrem por acaso. Não foi o azar que fez Lula aumentar os gastos: foi uma decisão consciente, em parte balizada pela crença de que botar dinheiro na mão da população “faz a economia girar”, mas também pelo entendimento de que mais transferências implicariam maior popularidade. Ainda que seja loucura, há nela certo método, como diria o bardo. Esperar, porém, que, a esta altura do campeonato, o presidente vá ter uma epifania e se tornar um campeão da retidão fiscal, exige loucura sem qualquer método.
Isto dito, o problema vai além das convicções pessoais de Lula, ou do mero oportunismo. Não há, depois do que se viu nos últimos quatro anos, depois da campanha e, em particular, nas três semanas acima citadas, a menor condição política para que — mesmo depois da revelação — Lula venha a público e anuncie medidas que coloquem o gasto e a dívida em rota sustentável. Isso exigiria, sem esgotar o assunto, acabar com a política de elevação do salário mínimo acima da inflação, promover nova rodada de reforma da Previdência (elevando a idade de aposentadoria e colocando militares no balaio comum), alterações das regras de acesso aos programas sociais, mudanças na carreira do funcionalismo, desvinculação dos pisos constitucionais de saúde e educação das receitas federais, assim como redução das emendas parlamentares no contexto de um governo ainda mais dependente do Centrão.
“Uma gestão paralisada em face do desafio fiscal resultou na pior crise da economia em quarenta anos”
Fica como exercício de imaginação qual seria a reação do público a um estelionato eleitoral desse naipe. Caso, porém, falte imaginação, minha sugestão consiste em examinar o ocorrido na transição do primeiro para o segundo mandato da presidente Dilma. Pressionada pela desvalorização da moeda, pelo aumento dos juros — tanto do BC quanto dos títulos públicos de longo prazo — e por inflação acima da meta, mesmo com preços de combustíveis amordaçados, ela ensaiou mudar de rumo. Sua popularidade despencou e, com ela, qualquer resquício de apoio político.
Seu Fulano de Tal foi Joaquim Levy, visto como a grande esperança de ajuste fiscal, mas que em menos de um ano pediria demissão do cargo depois de persistente sabotagem do próprio governo e do partido da presidente. O resultado de um governo paralisado em face do desafio fiscal foi o dólar ainda mais caro, juros mais altos, inflação de dois dígitos e a transformação da recessão moderada iniciada no segundo trimestre de 2014 na pior crise da economia brasileira em mais de quarenta anos. O risco de desenvolvimentos similares é minha maior preocupação hoje. Às vezes dois raios conseguem cair no mesmo lugar.
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