Apesar de a atividade econômica ter desacelerado moderadamente nos últimos meses, as projeções de inflação para este ano ainda estão em 5%, de acordo com o relatório Focus
Estadão
Na terça-feira, 15, quando começar sua última reunião antes da eleição, o Copom analisará um cenário que é de crescente incerteza e que dificulta decisões. O consenso no mercado é de que haverá um novo corte de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic. Caso haja de fato este corte, a cautela exigida no momento recomenda não ir além disso na condução dos juros.
Podemos ter noção das dificuldades das autoridades monetárias neste momento pelas palavras de Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu. Na semana passada, o BCE elevou sua taxa de referência a 2,5% ao ano, nível alto para seus padrões.
Ao explicar detalhes da decisão, Lagarde foi franca. “Não debatemos nenhum tipo de trajetória futura, nem a probabilidade de isso ou aquilo acontecer”, disse. “Isso pode incomodar vocês, observadores e analistas, mas fazemos isso porque estamos diante de um nível de incerteza que pode mudar as coisas praticamente da noite para o dia.”
Sabe-se apenas que a pressão inflacionária estará presente por muito tempo. O preço do petróleo ultrapassou novamente a casa dos US$ 100 o barril na semana passada, devido a novos movimentos na guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, um fator de tensão para o qual ninguém tem um prognóstico de fim. Há ainda a perspectiva do El Niño, que deve afetar safras e elevar os preços dos alimentos no Brasil e outros países. Tudo isso num momento de alto nível de endividamento de vários países.
O petróleo é um fator inflacionário para o médio prazo. O governo vem lidando com o choque nos preços dos combustíveis por meio de subsídios, para evitar reajustes ao consumidor e impacto maior na inflação. Na semana passada, ampliou o subsídio à gasolina de 44 centavos para 63 centavos por litro e o prorrogou até 9 de outubro. Há também subsídios ao etanol e ao diesel. Até agora, essa política custou R$ 37,5 bilhões. O problema é que guerras podem durar mais do que orçamentos.
Apesar de a atividade econômica ter desacelerado moderadamente nos últimos meses, as projeções de inflação para este ano ainda estão em 5%, de acordo com o relatório Focus – acima dos 4,5%, que são o teto da meta a ser perseguida. Só há espaço para uma possível redução na Selic porque o Copom ampliou o horizonte relevante da política monetária para o primeiro trimestre de 2028.
Esse espaço, contudo, não é significativo. Apesar de sinalizações de ajustes fiscais futuros na campanha eleitoral, o Copom ainda tem de levar em conta que terá de lidar por algum tempo com os efeitos de uma política fiscal expansionista, que alimenta a inflação e eleva a dívida pública.
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