Globo
A alternativa é ser o que Felipe González foi para a Espanha, renunciando ao marxismo e assumindo uma posição reformista
Para surpresa geral e alívio de muitos, inclusive meu, Lula derrotou Flávio Bolsonaro e caminha para o quarto mandato como presidente. A novidade alvissareira do segundo turno foi a mobilização, especialmente da juventude, em defesa da democracia. Em resposta, Lula se comprometeu a mudar sua forma de governar. O que vem à frente depende de que decisões ele tomará na área econômica. Uma alternativa é seguir com as políticas de Lula 3 e desembocar numa crise financeira de consequências imprevisíveis — a caldeirinha que apagará sua biografia. A outra é voltar às origens do Lula 1 e sair de seu quarto mandato como um dos grandes estadistas brasileiros — a cruz que lhe dará redenção.
O importante não será o recorde de mandatos conquistados nas urnas. Isso contará para o “Guinness”, não para a posteridade. Pois Lula corre o risco de ser lembrado como Perón: o presidente mais popular que a Argentina já teve e o principal responsável pelo feito singular de um país rico ter se tornado pobre.
— Dê ao povo tudo o que puder; quando lhe parecer que já dá demais, dê mais — escreveu Perón ao presidente eleito do Chile. — Não há nada mais elástico que a economia, que todos temem tanto porque ninguém a entende.
Além de arrebentar diversas vezes, a economia da Argentina foi definhando continuamente de tanto ser esticada pelos peronistas.
A alternativa para Lula é ser para o Brasil o que Felipe González foi para a Espanha. Renunciando ao marxismo e assumindo uma posição reformista, ele governou o país por quatro legislaturas sucessivas, de 1982 a 1996, consolidou a democracia, levou o país à Comunidade Europeia e a transformou no país desenvolvido que é hoje.
Num artigo de janeiro de 2004 na Revista de Economia Política, avaliando as chances de sucesso de Lula 1, escrevi que havia dois caminhos para isso: um reformismo acelerado ou um golpe de sorte do exterior. Veio-lhe a sorte grande, na forma da bonança das commodities e da descoberta do pré-sal. Isso lhe garantiu não só a reeleição, como a eleição de Dilma depois dele. Porém, como abandonou o caminho das reformas, o sucesso só durou enquanto o exterior ajudou. Acabou a onda das commodities, acabou o crescimento. Agora as coisas estão bem mais complicadas. O crescimento lá fora desacelera, dos Estados Unidos à China, passando pela Europa.
Lula 3 teve o grande mérito de aprovar a reforma tributária do consumo. Afora isso, do ponto de vista econômico, pode ser resumido assim: por ter revertido reformas do governo Temer e praticado uma política econômica inconsistente, chega a seu fim com uma inflação acima do teto da meta, uma das mais altas taxas de juros reais do mundo e uma dívida pública de 83% do PIB, 11 pontos percentuais mais alta que em 2022.
Lula 3 colocou a economia do país numa trajetória insustentável que, continuada, muito provavelmente desembocará numa crise financeira de proporções desconhecidas. Essa seria sua caldeirinha.
Suas primeiras medidas, sobretudo a escolha do chefe da Casa Civil e do ministro da Fazenda, indicarão por que caminho pretende andar. A boa alternativa envolve, de início, nomear nomes com alta credibilidade para esses dois postos-chave, além de completar a diretoria do Banco Central com economistas conceituados. E então os liberar para tomar medidas que permitam gerar superávits primários no governo central não inferiores a 2,5% do PIB, como em Lula 1. Isso permitirá a queda dos juros e porá a dívida pública em trajetória declinante, abrindo caminho a um crescimento sustentado.
Por que então a cruz? Porque essa alternativa desagradará a seus aliados tradicionais, por contrariar o que foi dito e feito no terceiro mandato, inclusive na recente campanha. E como justificá-la para si mesmo? Testemunhamos, na noite da vitória, a promessa de Lula de mudar sua forma de governar. Se a promessa não valer para a economia, será a crise que lhe imporá a mudança de rumo, a um custo imenso para o país e para sua biografia. Se valer, ele poderá carregar a cruz por escolha própria — e sair do quarto mandato como o estadista que o Brasil espera.
Link da publicação
As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
