O discurso de Lula e os fatos na economia

Henrique Meirelles

Espero que fala recente do presidente, por mais gastos públicos, seja apenas um discurso político

Estadão

Em um pronunciamento na Espanha durante viagem na semana passada, o presidente Lula falou que bancos públicos, entre eles, o BNDES, vão voltar a fazer empréstimos para incentivar o crescimento. Disse que, se for necessário aumentar a dívida pública para o País crescer, isso será feito. Disse também que sua gestão não privatizará nenhuma empresa estatal. Eu espero que tenha sido apenas um discurso político, uma sinalização ao PT e aliados que concordam com essa visão.

Recentemente, fiz uma palestra a alunos da FEA, na USP. Disse a eles que, na história econômica brasileira, algumas coisas que parecem extraordinárias são mera repetição – e, portanto, o resultado delas é previsível. O discurso do presidente evoca o modelo econômico que foi executado no governo Dilma, a época do “gasto público é vida”. Resultou na maior crise da história recente, com uma queda do PIB de 5,2% entre junho de 2015 e maio de 2016, quando assumi o Ministério da Fazenda. Aumentou a dívida pública e o risco-país, e resultou em aumento do desemprego e perda de renda. Em resumo, não funciona.

Tudo que o Brasil não precisa agora é da volta desse modelo. Não privatizar estatais significa não fazer parte importante da reforma administrativa, que seria capaz de reduzir significativamente gastos públicos e criar espaço para mais investimentos em infraestrutura e gastos sociais. O Brasil não precisa de aumento da dívida pública. Ela está em 73% do PIB, um nível alto para países emergentes como o Brasil, e em trajetória ascendente. Após três anos de desrespeito ao teto de gastos, o sinal para o mercado é péssimo.

Pode-se falar tudo no aspecto político, mas a realidade é de que o Brasil está inserido no mercado nacional e internacional e pode ser beneficiado ou prejudicado pelas decisões de política econômica. Se o governo optar pelo modelo de gasto público para forçar o crescimento, fará com que o mercado tenha menos confiança no País, que sofrerá as consequências.

Como disse no início, eu prefiro trabalhar com a prática, a realidade, não com discursos, que podem não se realizar. Falei na coluna anterior que o projeto do arcabouço fiscal enviado ao Congresso é mais focado na receita do que no corte de despesas e, a princípio, não parece capaz de gerar superávits fiscais em níveis suficientes para reduzir a dívida pública. Mas sua existência e o empenho do Ministério da Fazenda na aprovação são sinais claros de que o governo se preocupa com a responsabilidade fiscal, com o controle das despesas e a dívida pública. Prefiro me ater aos fatos.

Link da publicação: https://www.estadao.com.br/economia/henrique-meirelles/discurso-lula-fatos-economia/

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Ouvir conteúdo

0 palavras · ~1 min de leitura

Publicações Recentes

A conta da dívida chegou

Henrique Meirelles
·

Meu mundo é hoje

Alexandre Schwartsman
·

A caixa preta das margens de preferência, e o custo para o Brasil

Marcos Mendes
·

Contas públicas: Governo gasta por fora do Orçamento e já impacta PIB, diz especialista

CDPP
·
Podcast

Podcast do CDPP