Estadão
A mera expectativa do ajuste fiscal derrubou o juro real
Paul Krugman recentemente escreveu que palpiteiros falam do mercado acionário; analistas econômicos sérios discutem o mercado de juros.
Digo isso porque, enquanto muita gente ficou aturdida com a reação da bolsa aos resultados do primeiro turno das eleições, a resposta do mercado de juros foi, na verdade, até mais intensa e, do ponto de vista econômico, muito mais eloquente.
A taxa de juros para 10 anos caiu de 14,4% para 13% ao ano. A inflação implícita nos títulos caiu de 6,5% para 5,7%, enquanto o juro real recuou de 7,4% para 6,9%. Trata-se da maior redução diária observada nos últimos 17 anos e premiou os detentores destes papéis com valorização superior a 12%, batendo inclusive a bolsa.
Mais importante, contudo, do que o ganho dos investidores é o que o movimento revela acerca de suas origens e consequências.
Não é segredo que a resposta do mercado ao resultado eleitoral decorre da convicção de que a vitória da oposição implicaria mudança dos rumos da política econômica, em particular na questão fiscal. Espera-se, sem entrarmos nos fundamentos dessas expectativas, que haja forte redução da despesa pública.
Entende-se que, sob tais condições, a inflação seria mais baixa, porque o impulso de demanda vindo do gasto, que pressiona a inflação, seria menor. Isto possibilitaria ao BC redução maior da Selic do que seria viável com gastos mais altos.
Antes da eleição o mercado de juros atribuía 50% de chance de novo corte de 0,25 ponto percentual em novembro, seguido de estabilidade em dezembro e um cenário que voltava a embutir alguma elevação dos juros em 2027. Agora considera a continuidade dos cortes até meados de 2027, com uma taxa Selic ao final daquele ano quase 1 ponto percentual abaixo da embutida nos preços antes da eleição.
Ao mesmo tempo, os juros de longo prazo caíram, refletindo tanto a perspectiva de menor necessidade de financiamento do governo quanto a redução do prêmio exigido pelos investidores diante de uma trajetória mais sustentável da dívida, com implicações positivas para investimento e crescimento. Isto é ainda mais impressionante quando se observa o movimento em sentido oposto das taxas internacionais.
Obviamente a materialização do ajuste fiscal ainda depende tanto do resultado da eleição como da adoção das medidas necessárias.
Mesmo assim, a lição está dada: a perspectiva de ajuste fiscal abriu espaço para juros menores e reduziu a inflação implícita nos títulos. O ajuste ainda não aconteceu. Seu abandono, porém, já vinha sendo cobrado.
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