Se restava alguma dúvida...

Alexandre Schwartsman

Estadão

A mera expectativa do ajuste fiscal derrubou o juro real

Paul Krugman recentemente escreveu que palpiteiros falam do mercado acionário; analistas econômicos sérios discutem o mercado de juros.

Digo isso porque, enquanto muita gente ficou aturdida com a reação da bolsa aos resultados do primeiro turno das eleições, a resposta do mercado de juros foi, na verdade, até mais intensa e, do ponto de vista econômico, muito mais eloquente.

A taxa de juros para 10 anos caiu de 14,4% para 13% ao ano. A inflação implícita nos títulos caiu de 6,5% para 5,7%, enquanto o juro real recuou de 7,4% para 6,9%. Trata-se da maior redução diária observada nos últimos 17 anos e premiou os detentores destes papéis com valorização superior a 12%, batendo inclusive a bolsa.

Mais importante, contudo, do que o ganho dos investidores é o que o movimento revela acerca de suas origens e consequências.

Não é segredo que a resposta do mercado ao resultado eleitoral decorre da convicção de que a vitória da oposição implicaria mudança dos rumos da política econômica, em particular na questão fiscal. Espera-se, sem entrarmos nos fundamentos dessas expectativas, que haja forte redução da despesa pública.

Entende-se que, sob tais condições, a inflação seria mais baixa, porque o impulso de demanda vindo do gasto, que pressiona a inflação, seria menor. Isto possibilitaria ao BC redução maior da Selic do que seria viável com gastos mais altos.

Antes da eleição o mercado de juros atribuía 50% de chance de novo corte de 0,25 ponto percentual em novembro, seguido de estabilidade em dezembro e um cenário que voltava a embutir alguma elevação dos juros em 2027. Agora considera a continuidade dos cortes até meados de 2027, com uma taxa Selic ao final daquele ano quase 1 ponto percentual abaixo da embutida nos preços antes da eleição.

Ao mesmo tempo, os juros de longo prazo caíram, refletindo tanto a perspectiva de menor necessidade de financiamento do governo quanto a redução do prêmio exigido pelos investidores diante de uma trajetória mais sustentável da dívida, com implicações positivas para investimento e crescimento. Isto é ainda mais impressionante quando se observa o movimento em sentido oposto das taxas internacionais.

Obviamente a materialização do ajuste fiscal ainda depende tanto do resultado da eleição como da adoção das medidas necessárias.

Mesmo assim, a lição está dada: a perspectiva de ajuste fiscal abriu espaço para juros menores e reduziu a inflação implícita nos títulos. O ajuste ainda não aconteceu. Seu abandono, porém, já vinha sendo cobrado.

Link da publicação

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Ouvir conteúdo

0 palavras · ~1 min de leitura

Publicações Recentes

Lula e Flávio terão desafios distintos na economia

Samuel Pessôa
·

Uma terceira via para a política industrial?

Edmar Bacha
·

Flávio considera mudar correção da Previdência, da saúde e da educação para obter até R$ 250 bi

CDPP
·

A esquerda e o conflito distributivo

Samuel Pessôa
·
Podcast

Podcast do CDPP