Uma campanha sem falar de economia

Henrique Meirelles

Estadão

A campanha eleitoral já dura dois meses, e temos mais duas semanas pela frente, mas ainda sabemos pouquíssimo sobre o que os candidatos planejam para seus eventuais governos na economia. A agenda divulgada é fraca e não permite análises. É uma postura confortável para quem disputa a eleição, mas delicada para o momento que o Brasil atravessa.

O País está numa situação de estabilidade no baixo crescimento do PIB, com uma inflação ligeiramente acima do teto da meta e uma taxa de juros alta, necessária para conter os efeitos do excesso de gastos públicos na inflação. A dívida pública, hoje equivalente a 82,9% do PIB, vem em trajetória ascendente desde 2022.

Diante dessa situação, quem quer que seja eleito no dia 25 terá, no dia seguinte, de trabalhar para colocar em prática um sério ajuste fiscal. Sem isso, o País corre risco no atual contexto internacional de alta dos juros. Sem ajuste, também não haverá espaço para a queda dos juros e, consequentemente, para o crescimento da economia.

O Ministério da Fazenda já falou em reduzir de 2,5% para 1,5% o aumento real das despesas de um ano para o outro em um eventual novo governo Lula. Assessores do candidato Flávio Bolsonaro falam em um corte de R$ 200 bilhões, sem detalhá-lo.

Um ajuste fiscal relevante terá de enfrentar pontos delicados, como mudanças no sistema de benefícios sociais. O Brasil tem milhões de pessoas que precisam dessa ajuda, mas chegamos ao ponto em que um contingente expressivo de pessoas nem procura emprego para não perder seus benefícios. Isso mantém a taxa de desemprego baixa, em 5,3%, mas alguns setores sofrem com falta de mão de obra e os gastos do governo crescem rapidamente.

Da mesma forma, os candidatos terão de levar à frente mais duas reformas estruturais. Uma é a administrativa. Além de reduzir gastos que foram de R$ 408 bilhões no ano passado, é preciso racionalizar a máquina pública. Será necessária também uma nova reforma trabalhista, pois desde a última, em 2017, surgiram novas atividades e modalidades de trabalho que precisam de regulamentação.

Postergar o ajuste fiscal e as reformas é alimentar uma crise fiscal e aumentar o tempo de sacrifício necessário para a recuperação. Crises fiscais são doloridas na sociedade. A nossa última, em 2014-2016, fez o PIB recuar mais de 5% nos 12 meses, de junho de 2015 a maio de 2016. As necessidades da economia brasileira passaram longe do debate dos candidatos com a sociedade durante a campanha. As consequências disso serão enfrentadas logo depois do encerramento da festa da vitória.

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