Em condições normais, a indústria de transformação lideraria o ciclo econômico e a recuperação dos últimos meses seria motivo de otimismo. Contudo, a dinâmica da atual recessão é distinta, com peso bem maior do setor de serviços por razões sanitárias. Nesse contexto é difícil acreditar retorno rápido ao nível de atividade observado no final de 2019

Crisis Management, Teamwork concept

Os últimos números da atividade industrial foram alentadores. Depois da forte queda no bimestre março-abril, a produção da indústria de transformação cresceu de forma ininterrupta no trimestre maio-julho.

Muito embora ela ainda se encontre algo como 6,5% abaixo dos níveis observados no começo do ano, pode atingir os níveis pré-crise nos próximos meses, mesmo que não mantenha o ritmo recente.

Em condições normais, a recuperação do setor industrial seria motivo para otimismo no que diz respeito à economia como um todo.

De fato, tanto nas recessões como nas recuperações dos últimos 25 anos, a indústria de transformação revelou-se tipicamente não apenas mais volátil do que o PIB, como também do que o setor de serviços, sugerindo a liderança do ciclo econômico.

Mesmo dando o desconto devido às dificuldades de mensuração de serviços, a verdade é que quase sempre a indústria cai, durante a recessão, mais rapidamente que aquele setor (que, por vezes, sequer se retrai no período) e também se recupera de maneira mais vigorosa.

Diga-se, aliás, que a fraqueza relativa do setor industrial entre 2017 e 2019 foi um dos sintomas mais marcantes da incapacidade de a economia brasileira voltar aos patamares vigentes no começo de 2014.

Com base, portanto, nessa experiência, naturalmente saudaríamos o crescimento industrial dos últimos meses como evidência de uma recuperação em “V”, capaz de nos levar aos níveis de atividade observados no final do ano passado e começo deste ano em prazo relativamente curto.

Não vivemos, porém, em tempos normais.

Embora a queda do produto industrial tenha sido mais abrupta que a dos serviços (19% contra pouco menos de 12%), há motivos para crer que – ao contrário do registrado em ciclos anteriores – a recuperação industrial dificilmente trará os serviços a reboque, pelo menos até debelarmos a crise sanitária.

De fato, as maiores quedas registradas nesse setor (comércio, transportes e outros serviços) ocorreram em segmentos em que há necessidade de interação próxima, portanto em conflito com o distanciamento social requerido para moderar a transmissão do coronavírus, ainda que muitos pareçam ter se esquecido do assunto.

Note-se, a propósito, que tais segmentos representavam no ano passado perto de 50% do valor adicionado no setor de serviços, ou cerca de 30% do PIB.

Já do ponto de vista do emprego, somavam em fevereiro (em termos dessazonalizados) algo como 40 milhões de postos de trabalho, ou seja, 42% da ocupação observada naquele mês (94 milhões).

Isso dito, quase dois terços da redução do emprego registrada entre fevereiro e junho concentrou-se precisamente lá (7 milhões de uma perda total de 10,7 milhões).

Posto de outra forma, na ausência de vacinas ou outras formas de tratamento, o distanciamento social, ainda que enfraquecido, deve impedir o retorno rápido aos níveis de atividade prevalecentes pré-pandemia, seja pela perspectiva da produção (ou seja, o PIB), seja pela do emprego.

Espero, a bem da verdade, forte expansão do PIB no terceiro trimestre deste ano, mas que ainda nos deixaria 6-7% abaixo do registrado no final de 2019. O retorno àquele nível deve demandar, portanto, mais dois ou três trimestres, ou seja, em algum momento na primeira metade de 2021.

Isto dito, mesmo considerando o baixo crescimento do produto potencial, dificilmente voltaremos à tendência pré-crise antes do final daquele ano.

A recuperação em “V” é mais um desejo do que uma possibilidade concreta.

Fonte: Infomoney

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.