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Financiando a regeneração das matas

País pode associar a regeneração das florestas ao plano da UE para acomodar o menor uso de gás russo

Valor

A retomada da economia global – agora em risco em várias frentes – não tem sido favorável à luta contra a mudança climática. O surto de demanda e as condições atmosféricas desfavoráveis em 2021 resultaram em grandes emissões de CO2, puxadas pelo uso do carvão, face ao gás natural mais caro.

Segundo a Agência Internacional de Energia, as emissões do carvão, em 15 bilhões de toneladas (Gt), corresponderam a 40% do aumento das emissões globais de CO2 em 2021, com as do gás (7.5GtCO2) também superando seus níveis de 2019. Com o aumento das viagens, as emissões de derivados de petróleo devem agora ultrapassar as de 2019 (11GtCO2).

A geração renovável e nuclear cresceu perto de 7% em 2021, mas ainda soma muito pouco da eletricidade necessária à humanidade.

Nesse ambiente, o Painel do Clima da ONU alertou que o mundo não terá cortado suas emissões em 2030 no volume necessário para evitar um aquecimento acima de 1.5ºC à frente. Essa perigosa temperatura poderá ser, ao contrário, uma realidade em menos de dez anos, com fortes efeitos sociais e econômicos – como ilustra a atual seca nos EUA, que reforçará a inflação naquele país.

Diante da piora do risco climático – inclusive com a guerra na Ucrânia – o Painel da ONU tem apontado a urgência de se retirar carbono do ar, sequestrando-o. É aí que o Brasil pode ter um papel único nos próximos 10/15 anos, se o país focar na restauração florestal. Aliás esse é um compromisso nacional desde 2015, quando nossa Contribuição para o Acordo de Paris incluiu a restauração de 12 milhões de hectares (Mha) de florestas.

O conhecimento acumulado sobre sequestro de carbono por meio da restauração florestal e dados como os proporcionados pelo projeto MapBiomas são sólidos e podem orientar com segurança as políticas públicas e a abertura dos mercados necessárias.

Uma pesquisa pioneira indicou em 2016 que as florestas crescendo em áreas desmatadas, chamadas florestas secundárias, podiam conservadoramente sequestrar 30GtCO2 na América Latina nos próximos 40 anos1. Esse valor equivale a quase um ano de emissões globais por combustíveis fósseis, e está concentrado nas florestas Amazônica e Atlântica brasileiras, o que despertou inúmeras pesquisas.

O potencial de sequestro de CO2 em florestas secundárias varia em função da idade, localização e stress dessas matas. Florestas com menos de 20 anos podem sequestrar 10tCO2 por hectare em certas áreas da Amazônia, mas apenas um terço disso em terras que sofreram cortes e queimadas repetidas2. Assim, a Amazônia poderia sequestrar 80MtCO2 por ano, ou 75% das emissões anuais da frota de caminhões brasileira. Esse sequestro pode crescer se a regeneração das matas for assistida, aproveitando o conhecimento das empresas brasileiras sobre florestas comerciais e nativas, e o corte de florestas jovens diminuir.

Uma dificuldade para maior efetividade da restauração é que quase metade dos 13Mha de mata secundária na Amazônia é derrubada antes de alcançar cinco anos3. Esse corte pode refletir o simples rodízio do uso da terra ou o receio de que a permanência da nova mata resulte na proibição de futuro uso da terra para a agricultura (problema sério na mata Atlântica, por sinal). Além disso, o corte saltou a partir de 2017, talvez pelo sentimento de que houvesse aumentado a probabilidade de regularização das áreas desmatadas que estivessem ostensivamente “produzindo”.

Ações para fortalecer as florestas secundárias devem refletir sua situação fundiária, distribuição geográfica e critérios de priorização, inclusive econômicos. Perto de 40% dos 7.2 Mha de vegetação secundária na Amazônia com mais de seis anos se encontram em terras privadas ou em assentamentos4.

Há bastante florestas secundárias mais velhas no Pará, inclusive em áreas de antropização antiga, e menos em Rondônia, onde o corte repetido parece mais frequente.

A presença da mata secundária também é significativa no entorno da Transamazônica e da BR 364 – onde há muitos assentamentos – e naquele de Santarém e das comunidades ribeirinhas até Manaus. Uma forma barata de consolidar um mínimo das florestas secundárias parece ser focar em alguns desses entornos e em certas áreas do Acre e Roraima5. A competição econômica aí pode ser baixa e a regeneração rápida. A captura de carbono é, no entanto, limitada, por nem sempre a regeneração resultar em matas densas.

A restauração no coração de Rondônia ou do Xingu sequestraria bastante carbono, mas custaria perto de $5/tCO2, talvez pela concorrência com a agropecuária. Esse custo justifica que a restauração lastreie créditos de carbono que gerem os incentivos para que a mata surja ali e não seja cortada. O reconhecimento dessa adicionalidade também é importante quando a regeneração é assistida ou se dá em sistemas agroflorestais (SAF) que trazem receitas e ampliam o ganho social do investimento. Créditos podem ainda ajudar a proteger o 1.4Mha de matas secundárias em áreas públicas não designadas.

Sendo a expansão das matas secundárias competitiva e verificável, vale a pena focar em mercados globais de carbono. Para isso, o país pode, por exemplo, associar a regeneração das florestas ao plano que a União Europeia (UE) vem discutindo para acomodar o menor uso de gás russo.

O plano da UE envolve a emissão de permissões de poluir no montante 200-250 MtCO2, precificadas a $80-100/tCO2 6. Se 10% dos €20 bilhões assim levantados forem destinados ao fortalecimento de soluções baseadas na natureza, o aumento líquido das emissões Europeias será menor e um grande impulso será dado à talvez única tecnologia de sequestro de carbono em grande escala já testada e disponível hoje.

www.science.org/doi/10.1126/sciadv.1501639

2. www.nature.com/articles/s41467-021-22050-1

3. iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/ab76db#erlab76dbf2

4.amazonia2030.org.br/wp-content/uploads/2021/04/Restauracao-Florestal-AMZ-2030.pdf

5.amazonia2030.org.br/wp-content/uploads/2022/02/AMZ-29.pdf

6.www.ft.com/content/be8d95cc-273a-43b8-b6ab-e9f95685ddc7

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/financiando-a-regeneracao-das-matas.ghtml

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Sobre o autor

Joaquim Levy