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Insegurança em São Paulo

Sensação de insegurança provoca uma redução da taxa de coesão social e torna pior a vida na cidade

Valor

Uma pesquisa recente do Datafolha mostrou que a violência é a maior preocupação dos paulistanos, tendo sido citada por 22% dos entrevistados, ultrapassando a saúde, que geralmente era a sua maior preocupação. Ao mesmo tempo, as taxas de homicídios em São Paulo declinaram muito nos últimos 20 anos. Por que será então que os paulistanos se sentem tão inseguros?

A figura ao lado mostra que a taxa de homicídios atualmente na cidade de São Paulo é de 5 mortes para cada 100 mil habitantes, 10% daquela que vigorava em 2003, quando cerca de 5 mil pessoas foram assassinadas, o que fazia de São Paulo uma das cidades mais violentas do mundo. Hoje em dia, o número de homicídios em São Paulo está entre os mais baixos das grandes cidades brasileiras, e é menor do que o de muitas grandes cidades americanas.

O problema é que a sensação de insegurança parece estar mais relacionada com o medo de sofrer violência durante um assalto do que com as taxas efetivas de homicídios. E a figura também mostra que a porcentagem de pessoas roubadas não caiu nos últimos 20 anos, como ocorreu com os homicídios, tendo permanecido em torno de 8% neste período. Os dados de roubos são da mais recente pesquisa de vitimização da Cátedra Ruth Cardoso do Insper, realizada entre março e junho deste ano, com uma amostra de 3 mil famílias representativa da população da cidade de São Paulo. Esta pesquisa é realizada a cada cinco anos, desde 2003. O que mostram os demais resultados?

As taxas de vitimização são bastante elevadas. Em 2023, quase metade dos paulistanos foram vitimizadas de alguma forma nos últimos doze meses, o que inclui roubo, furtos, estelionatos ou agressões verbais ou físicas. Em termos das ocorrências mais graves, 8% das pessoas entrevistadas foram roubadas (equivalente a 750 mil pessoas na população) e 13,7% furtadas (1 milhão e 300 mil pessoas). O celular foi o objeto mais levado nos roubos e furtos (80%). Além disto, quase metade dos paulistanos foram vítimas de crime ou agressão alguma vez na vida, grande parte deles ameaçados com arma de fogo. Esses números explicam a persistente sensação de insegurança na cidade.

Outros resultados da pesquisa também são preocupantes. Eles mostram que 10,4% das mulheres (que representam meio milhão de mulheres na cidade) foram assediadas sexualmente. O principal local de ocorrência de assédio foi durante o transporte, no ônibus, táxis ou transporte por aplicativos. O assédio é cometido predominantemente por desconhecidos.

O aumento da sensação de segurança depende mais da redução da taxa de roubos com uso de violência

Mais ainda, 30% dos paulistanos sofreram alguma modalidade de estelionato no ano passado. Os principais delitos foram os problemas com sites ou aplicativos de compra, roubo de dados pessoais e fraudes com cartões de crédito. Este grande aumento de crimes virtuais, que não exigem a presença do criminoso no local do delito, é um dos maiores desafios para a segurança pública e deverá continuar aumentando ao longo do tempo.

A polarização política também parece ter acirrado os ânimos na cidade. A pesquisa mostrou que 1% dos entrevistados relataram ter sofrido algum tipo de agressão física por motivos ideológicos, ao passo que 5% sofreram agressão verbal pelo mesmo motivo. Além disto, 6% dos entrevistados foram discriminados, sendo que a questão racial foi o motivo mais citado pelas pessoas que foram discriminadas.

Esta permanente sensação de insegurança provoca também perda de confiança nos demais cidadãos. Por exemplo, a porcentagem de pessoas que emprestaria R$ 70 para um vizinho de porta caiu de 57% em 2003 para 44% em 2023. Pesquisas internacionais mostram que a taxa de confiança em pessoas próximas é uma das melhores medidas de coesão social, que por sua vez, é importante para o desenvolvimento econômico com justiça social.

Mas por que será que os homicídios caíram tanto nos últimos vinte anos, mas os roubos não? Uma possibilidade, levantada em vários livros e artigos recentes, é que a monopolização do crime organizado na cidade tenha contribuído para a diminuição dos homicídios, sem afetar os roubos e tráficos de drogas (ver, por exemplo, “Pax Monopolista and Crime: The Case of the Emergence of the Primeiro Comando da Capital in São Paulo”, por Biderman, Mello, Lima e Schneider). Mas este não é o único fator, pois ele explica apenas uma parte da redução de homicídios ocorrida no período.

Em suma, a sensação de insegurança ainda é grande na cidade de São Paulo. A forte redução na taxa de homicídios trouxe ganhos de bem-estar para as famílias mais pobres, que formam a grande maioria das pessoas assassinadas. Mas ela não contribuiu para o aumento da sensação de segurança, que parece depender mais da taxa de roubos com uso de violência, que continua em alta. Esta sensação de insegurança provoca uma redução da taxa de coesão social e torna pior a vida na cidade. Para reverter este círculo vicioso, é necessário reduzir também os roubos na cidade.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/inseguranca-em-sao-paulo.ghtml

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Sobre o autor

Naercio Menezes Filho