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Um novo patamar de exportações?

Ganho estrutural nas exportações pode melhorar nosso balanço macro com efeitos nos juros

Valor

Com a Presidência do G20 em 2024, o mundo estará olhando o Brasil, esperando sinalizações para além dos trabalhos dos grupos temáticos que alimentam as decisões do colegiado. O clima será um tema central, inclusive no que tange ao financiamento para se mitigar as emissões dos gases de efeito de estufa (GEE) e enfrentar as eventuais mudanças climáticas à frente (adaptação).

O financiamento público internacional está tensionado pelo impacto fiscal da covid nas economias avançadas. Assim, os fluxos de capital privado serão cruciais, especialmente para a mitigação. Eles serão cada vez mais influenciados pelas regras contábeis, mudanças de preços relativos e riscos em diferentes setores econômicos e geografias. Salvo distorções, deverão procurar países com menor custo de produção limpa. Essa será a nova economia de baixo carbono, ou da transição energética-ecológica, em que o Brasil, além de alcançar seu “net zero”, poderá ajudar outros países a avançar nessa direção, criando empregos aqui, aliviando custos e riscos lá e tornando o mundo mais seguro.

Por escolha do Brasil, o G20 também focará nas desigualdades entre nações e dentro delas. É uma pauta muito ligada às finanças e ao comércio, quando países de menor renda sentem o impacto do combate global à inflação pós covid, que torna suas dívidas e importações, inclusive de alimentos, mais caras e difíceis. Também é uma pauta relacionada ao clima, já que os países pobres serão os mais afetados pelo aquecimento global. E onde a liderança do Brasil na produção alimentar pode fazer muita diferença.

Nos posicionarmos em relação aos grãos e proteínas animais, especialmente bovinas, será estratégico. A pecuária é importante para o Brasil, com a produção anual de 11 milhões de toneladas (Mt) de carne traduzidas em vendas de R$ 280 bilhões no varejo e R$ 65 bi de exportação, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Sob o holofote do mundo, o país poderá ganhar com maior congruência entre as estatísticas disponíveis. O IBGE, por exemplo, divulga um número de bovinos abatidos em 2022 que é 1/3 menor do que os 42 milhões estimados pela Abiec, talvez por diferenças metodológicas. Já, o rebanho bovino para o IBGE é cerca de 15% maior do que aquele estimado pela Associação.

Os números do IBGE sugerem uma expectativa de vida de 8 anos para os bovinos. É um valor alto, mesmo considerando 15 milhões de vacas leiteiras e um número significativo de matrizes que são preservadas por até 10 anos. Especialmente, quando a Abiec sugere que em 2022 apenas 10% dos bois teriam sido abatidos com mais de 3 anos de idade.

Convergir nas estimativas do tamanho do rebanho bovino permitiria melhor apreciação da produtividade do setor e das emissões de GEE a ele atribuídas. Na métrica convencional (GWP100) nossa pecuária emite perto de 400Mt de CO2 anualmente, e uma diferença de 15% no rebanho corresponderia a até 60MtCO2. Tal discrepância no inventário de emissões brasileiras pode ser maior do que a redução de emissões da indústria brasileira alcançável até 2030, mesmo com um mercado de carbono regulado e muito investimento.

Também pode ser do interesse das autoridades e empresas brasileiras conferirem as condições de nascimento de bezerros no país. Estudos da USP sugerem que quase 12 milhões de vacas foram inseminadas artificialmente em 2019, respondendo a talvez um terço das crias. Essa é uma proporção próxima da de países avançados e um indicador de qualidade no setor.

No entanto, a produção de bezerros no Brasil se cerca de incógnitas, especialmente na Amazônia, onde, alega-se com alguma frequência, a cria em pequena propriedade estaria associada ao desmatamento. Não há rastreamento sistemático e individual dos animais, e segundo a Abiec a cria na pecuária extensiva é até 40% mais barata do que na intensiva. O que gera desconforto e incerteza, já que, abstraindo a recente duplicação do rebanho em alguns municípios paraenses (e.g., Marabá e Pacajá) e o boi no pasto para simples efeito de ocupação de propriedade maiores, se todos os 1,5-2,0Mha de pequena propriedade desmatados na Amazônia desde 2008 estivessem dedicados à cria, com um bezerro por hectare ano, talvez até 5% do rebanho nacional poderia vir daí.

Ganho estrutural nas exportações pode melhorar nosso balanço macro com efeitos nos juros

Maior clareza nos contornos desse problema pode tornar o rastreamento prometido pelos frigoríficos mais eficaz e barato, protegendo bilhões de dólares em exportações de carne bovina (US$ 12 bi em 2022) e o bom desempenho de nossas exportações totais.

As exportações totais brasileiras devem continuar a crescer em valor e quantidade, mesmo com a economia global esfriando. O superávit comercial recorde de US$ 90+ bilhões em 2023 deve ser seguido por superávits de US$ 70-80 bilhões nos próximos anos, apenas com a atual pauta de produtos e a ajuda das exportações de petróleo.

O forte e recorrente fluxo de caixa positivo da exportação projetado pelo time de macroeconomia do Banco Safra reflete um ganho estrutural da economia brasileira ainda pouco estudado. Ele pode melhorar nosso balanço macroeconômico nos próximos anos, segurando o câmbio e os juros enquanto se encontram caminhos para endereçar o problema fiscal decorrente do aumento permanente de despesas criado no ano passado. Seu eventual efeito nos juros neutros brasileiros ainda não é aparente, mas, na medida em que a robustez externa e a parcimônia com novos gastos públicos reduzirem os riscos da economia, ele poderá ser apreciável, ainda mais se uma economia de baixo carbono integrada ao mercado mundial criar raízes aqui.

Não tem escapado ao setor privado o potencial de comércio internacional de baixo carbono, como o aço verde e o processamento de dados, possíveis com energia limpa e barata no Brasil. Há também parceiros interessados na nossa participação nas cadeias de produção do futuro a partir de minerais estratégicos, biocombustíveis para a aviação mundial e soluções baseadas na natureza, inclusive no agro. A presidência do G20 é uma oportunidade para, como parte de uma pauta global, projetarmos esses caminhos de desenvolvimento.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/um-novo-patamar-de-exportacoes.ghtml

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Sobre o autor

Joaquim Levy