Artigos

Será que o Brasil está correndo atrás da fronteira tecnológica global?

A recente alta da produtividade americana expõe fragilidades do crescimento brasileiro, ainda baseado em fatores cíclicos e pouco ganho de eficiência

InfoMoney

A produtividade nos EUA acelerou nos últimos anos. Apesar de uma queda em 2022, quando a economia foi afetada por fatores cíclicos adversos, a produtividade do trabalho voltou a uma trajetória de alta desde 2023, bem acima da tendência pré-Covid. Os dados trimestrais de 2025 reforçam essa observação e sugerem nova aceleração: nos últimos três trimestres do ano, a produtividade cresceu a uma taxa anualizada de 4,1%, um ritmo visto pela última vez no fim dos anos 1990.

A questão é se o Brasil seguirá esse movimento. O crescimento no Brasil tem sido relativamente elevado nos últimos anos, o que levanta dúvidas sobre uma possível aceleração do crescimento potencial e gera amplo debate sobre quando e como a economia responderá à política monetária persistentemente restritiva. Para começar, quais são as forças por trás do crescimento recente no Brasil?

Um ponto extremamente importante é que o crescimento do PIB e o crescimento da produtividade são conceitos distintos.

O crescimento “headline” da economia tem sido robusto: o PIB avançou 3,2%, 3,4% e 2,4% em 2023-25, respectivamente, acima das estimativas de crescimento potencial em torno de 1,5% a 2,0%. O conceito de “potencial” é particularmente desafiador no Brasil, dada a história de grandes oscilações na tendência de crescimento (por exemplo, o boom durante o superciclo de commodities no início dos anos 2000, seguido por uma “década perdida” após a crise financeira global).

Em termos gerais, o crescimento potencial pode ser visto como resultado de três componentes: tendências demográficas contribuindo com cerca de 0,5% a 1,0%; acumulação de capital em magnitude semelhante; e produtividade total dos fatores entre 0,0% e 0,5%. Essa decomposição está em linha com o observado nos últimos anos, com medidas de produtividade crescendo bem abaixo do PIB. A produtividade do trabalho tem sido fraca, praticamente estável desde 2023 e em queda relativa em relação à produtividade dos EUA ao longo da última década.

O que explica essa diferença relevante entre PIB e produtividade? Em resumo, o PIB foi impulsionado de forma desproporcional por um choque agrícola recorde, forte crescimento do emprego e consumo sustentado por expansão fiscal e de crédito, fazendo com que cerca de dois terços do crescimento recente tenham vindo do aumento do uso de trabalho e de fatores cíclicos, e não de ganhos de eficiência.

Essa observação está diretamente relacionada à ideia de que a política monetária restritiva dos últimos quatro anos foi, ao menos em parte, compensada por uma política fiscal expansionista, reduzindo sua eficácia ou, no mínimo, retardando sua transmissão para a economia real.

Finalmente, em que medida a experiência dos EUA reflete fatores globais que podem beneficiar a produtividade brasileira? Por um lado, o Brasil pode se beneficiar significativamente em áreas com baixa barreira à adoção tecnológica.

A inteligência artificial é o principal exemplo: sua difusão internacional é relativamente fácil (por meio de plataformas em nuvem, APIs e empresas multinacionais), reduzindo a necessidade de inovação de fronteira doméstica e permitindo uma convergência mais rápida à medida que outros insumos complementares melhoram.

O Brasil já demonstrou, em setores como agronegócio e fintechs, que consegue adotar e escalar rapidamente tecnologias de ponta quando os incentivos estão alinhados, o que sugere que ganhos semelhantes são possíveis em uma escala mais ampla.

Por outro lado, as barreiras à adoção de IA no Brasil — falta de qualificação do trabalho, alto custo de capital, baixa concorrência e grande presença de empresas de baixa produtividade — são de natureza estrutural e persistem há décadas.

Superá-las exige uma importante agenda de reformas, a começar pelo Estado, onde impera o gasto excessivo e uma enorme ineficiência, trazendo o custo de capital a um nível incompatível com o investimento produtivo, além de reformas complementares em educação, mercados financeiros e ambiente de negócios, redução do risco jurídico e não apenas o acesso à tecnologia.

Como exemplo, temos a tributação no Brasil, que, além de ser excessiva, também é um pesadelo para aquelas empresas que querem pagar corretamente seus tributos. É comum no país a Suprema Corte mudar seu entendimento sobre questões tributárias, inclusive sobre períodos passados.

A aceleração recente da produtividade nos EUA — impulsionada por IA, digitalização e forte dinâmica empresarial — sugere que a fronteira tecnológica global está avançando mais rapidamente, elevando o desafio para o Brasil acompanhar.

Isso representa tanto uma oportunidade quanto um risco: se o Brasil enfrentar dificuldades na difusão tecnológica, devido à má alocação de recursos, baixa concorrência e ao peso de um grande setor de serviços de baixa produtividade. A não ser que haja uma importante mudança no arcabouço de políticas públicas com o objetivo de ampliar a produtividade e, com isso, o PIB potencial, veremos a aceleração dos EUA, pelo menos no curto prazo, ampliando o diferencial de produtividade entre os dois países e, provavelmente, em relação ao mundo.

Este artigo teve a coautoria de Benjamin Mandel, sócio e chefe de pesquisa da Jubarte Capital, e Luiz Fernando Figueiredo, sócio e conselheiro da Jubarte Capital.

Link da publicação: https://www.infomoney.com.br/colunistas/luiz-fernando-figueiredo/sera-que-o-brasil-esta-correndo-atras-da-fronteira-tecnologica-global/

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Luiz Fernando Figueiredo