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Perdemos o trem da história?

Para conseguirmos crescer mais no longo prazo vamos ter que aumentar o crescimento da nossa produtividade

Valor

Há muito tempo, em meados da década de 1970, o Brasil era considerado o país do futuro. Estávamos num período de crescimento econômico acelerado, provocado em grande parte pela migração das pessoas do campo, que trabalhavam na agricultura familiar, para atividades mais produtivas nas cidades. Mas, a partir dos anos 1980, o sonho acabou. Desde então, estamos crescendo muito pouco, vendo passar os trens que levam os países para o mundo desenvolvido. Será que algum dia vamos conseguir pegar este trem?

Para conseguirmos crescer mais no longo prazo vamos ter que aumentar o crescimento da nossa produtividade. Porém, como isto está ficando cada vez mais difícil, existe uma probabilidade grande de nunca conseguirmos entrar neste trem. A nossa sociedade está ficando cada vez mais “extrativista”, com os diversos grupos sociais querendo tirar a maior vantagem possível no curto prazo, sem restar quase ninguém para pensar no bem-estar coletivo e no longo prazo.

É preciso gerar empregos de qualidade em setores e ocupações mais inovadoras para os que saíram da pobreza

Nos últimos 30 anos, nós conseguimos resolver o problema de inflação e da fome e montamos um Estado de bem-estar social, com acesso à saúde, educação e transferências de renda para os mais pobres. Mas não estamos conseguindo dar o passo seguinte, que é gerar empregos de qualidade em setores e ocupação mais inovadoras para os que saíram da pobreza. Atualmente, mesmo com desemprego baixo e o salário médio no ponto mais alto da série, não estamos conseguindo decolar.

O crescimento salarial nas últimas décadas ocorreu principalmente na parte inferior da distribuição de salários. O aumento da escolaridade e no valor do salário mínimo foram os principais responsáveis por este crescimento. Atualmente, cerca de 70% dos trabalhadores brasileiros ganham entre 1 e 2 salários mínimos. No total, quase 150 milhões de brasileiros dependem do salário mínimo ou das transferências do Bolsa Família.

Em tempos de inovações constantes no mundo, estamos ficando cada vez mais para trás. As nossas empresas não utilizam as novas tecnologias para produzir de forma mais eficiente. Enquanto as empresas chinesas usam 50 robôs para cada mil trabalhadores industriais, as brasileiras usam menos de 1. As empresas brasileiras não inovam nem mesmo para superar as dificuldades de contratação de trabalhadores que ocorrem quando o mercado de trabalho está aquecido, como agora. E nosso atraso só vai aumentar com as novas tecnologias de inteligência artificial.

Nossas políticas industriais de incentivo à pesquisa e desenvolvimento não funcionam. Quase todo governo lança um novo plano de inovação, mas estes planos nunca conseguem aumentar a produtividade das empresas beneficiadas. Geralmente estes planos funcionam apenas como mecanismos de proteção dos setores industriais contra a competição das empresas chinesas, que são bem mais inovadoras. O único setor que tem tido crescimento de produtividade nas últimas décadas no Brasil foi a agricultura, graças a um processo contínuo de inovações originado na Embrapa. Mas será que vamos ficar para sempre sonhando com uma nova Embrapa que impulsione o país como um todo?

Ao mesmo tempo, outros problemas vão assombrando a sociedade. O crime organizado está se expandindo e diversificando rapidamente. Nas grandes cidades, as pessoas têm muito medo de circular nas ruas e serem assaltadas. As classes mais altas se isolam em condomínios e carros blindados. Na tentativa de resolver o problema de segurança pública, encarceramos cada vez mais jovens negros. A população carcerária, que era de 200 mil em 2000, está chegando perto de milhão de pessoas. Durante o período na prisão, estes jovens são recrutados pelo crime organizado, que os protege no sistema prisional, mas exige fidelidade na saída. A expansão do crime organizado nas últimas décadas é impressionante, com a formação de uma estrutura sofisticada para exportação de drogas, com rotas atravessando o país e provocando mortes em cidades que sempre foram pacatas. Estamos absorvendo as partes ruins do México e da Colômbia, ao invés de pegar o trem que leva para o mundo desenvolvido.

Alguns políticos são financiados pelo crime organizado e trabalham para proteger seus interesses. Além disto, temos casos como o do banco Master, que parece ter corrompido políticos, juízes e funcionários públicos. Ao mesmo tempo, muitos servidores que ganham altos salários se recusam a observar o limite salarial dado pelo STF. Tudo isto provoca uma grande falta de confiança nos três poderes por parte da sociedade. Pesquisas em vários países mostram que a corrupção no andar de cima estimula a corrupção no andar de baixo da sociedade. E as pesquisas também mostram de forma consistente que o brasileiro é o povo que menos confia nos seus compatriotas.

Com todo este contexto, e sem oportunidades de crescimento no setor formal da economia, limitado pelo baixo crescimento da produtividade, só resta aos jovens que saíram da pobreza tentar ganhar mais dinheiro por conta própria, sem interferência do Estado e fora do mercado formal. Eles não querem pagar impostos, nem contribuir para a Previdência. Estão se endividando cada vez mais e jogando nas bets para tentar realizar seus sonhos. Muitos apoiam candidatos com plataformas extremistas na segurança pública, que também prometem menos impostos e mais oportunidades.

Para tentar aumentar a produtividade de forma sustentada, seria necessário reduzir de forma drástica os benefícios fiscais, abrir a economia para que as empresas possam acessar os melhores insumos internacionais, aumentar a concorrência para melhorar as práticas gerenciais, desenhar políticas industriais que tenham metas específicas de inovação e exportação, fortalecer as agências públicas independentes e melhorar urgentemente a qualidade da educação. Mas com todo este emaranhado de problemas que só aumenta, associados a lobbies dentro e fora do governo, corrupção e crime organizado, dificilmente algum governo irá conseguir implementar estas políticas. Ou seja, parece que perdemos mesmo o trem da história.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/naercio-menezes-filho/coluna/perdemos-o-trem-da-historia.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Naercio Menezes Filho