Ex-presidente do BC vê com temor endividamento dos países e possível cenário de estagflação
Valor
O economista Arminio Fraga enxerga o cenário global sem atenuantes. “É um mundo onde a ordem global acabou. Não adianta tentar pintar um quadro mais róseo. Acabou mesmo.” Reconhece que “o que vem pela frente é difícil de prever” e lembra que “transições hegemônicas tendem a ser períodos de turbulência”.
Arminio, sócio-fundador da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, faz uma análise fria de como está a arquitetura institucional cooperativa que organizou o mundo depois da Segunda Guerra. O espírito da época, de reconstrução, abriu caminho para um período de prosperidade, mas agora enxerga o FMI mais fragilizado, a OMC, enfraquecida, e o Banco Mundial, menor. “De repente a gente acorda com a volta do Estado-nação e com tudo aquilo que dá medo, em que vale mais a força do que a forma institucional.”
Preocupa-se com o endividamento global das nações e com as tensões econômicas que podem surgir da turbulência. Não descarta que esteja se criando um cenário de estagflação.
No Brasil reconhece o crescimento dos últimos três anos, o desemprego baixo, o esforço do Banco Central e dá crédito ao Ministério da Fazenda por muitas iniciativas. “Mas acho preocupante um país que está com 80% do PIB de dívida pagando, na média, perto de 8% acima da inflação, uma economia que já mostra sinais de estresse.” Lembra que nos governos anteriores do presidente Lula o país tinha sempre superávit fiscal, mas é um crítico recorrente da atual política. “Foi uma lição que devíamos ter aprendido”, lamenta. “Hoje penso que essa situação macroeconômica não vai acabar bem. O que vai acontecer? Difícil prever.”
Arminio é um dos principais investidores e conselheiros da re.green, empresa brasileira de restauração ecológica que pretende recuperar 1 milhão de hectares na Amazônia e na Mata Atlântica. Esse é um setor que o anima e no qual vê enorme potencial para o Brasil. Na entrevista que concedeu ao Valor, ele fala também de créditos de carbono e de biodiversidade, novas concessões florestais, de petróleo e de energias renováveis.
Valor: Como analisa hoje a ordem global?
Arminio Fraga: Na esteira da Segunda Guerra, o mundo se organizou. Foram criadas instituições importantes como ONU, Banco Mundial, FMI e que criaram uma moldura institucional cooperativa. Era o espírito da época: reconstrução. Aquilo abriu caminho para um período de grande prosperidade. Foi um período curto, mas muito importante, e criou a esperança de que o mundo havia chegado a uma situação pacífica e favorável ao desenvolvimento. A China aderiu à economia de mercado e vem crescendo espetacularmente desde então. A grande potência eram os Estados Unidos, mas em um sistema que funcionava e provocou uma integração incrível. Foi o período da globalização, com oportunidades de crescimento dos mais pobres, mas também dos mais ricos.
Valor: E agora?
Arminio: De repente a gente acorda com a volta do Estado-nação e com tudo aquilo que dá medo, em que vale mais a força do que a forma institucional. Os Estados Unidos, embora sejam ainda um quarto da economia mundial – e que têm conseguido preservar essa fatia, a despeito, sobretudo, do crescimento da China -, não estão mais sozinhos. A volta do Estado-nação confirma a leitura de que as regras não valem mais.
Valor: O que quer dizer?
Arminio: O Estado-nação é o Estado que olha para dentro, que acredita no jogo de poder e joga pesado e com pouquíssimo respeito às instituições ou às fronteiras entre as nações. Estamos falando sobretudo dos Estados Unidos, da China e da Rússia, todos armados até os dentes com arsenais nucleares. Do lado econômico, a OMC está fragilizada. O FMI, que sempre funcionou para os países de renda média, continua lá, mas também está mais fragilizado. O Banco Mundial, que tinha vocação mais de desenvolvimento e combate à pobreza, também continua lá, mas a sensação é que ficou pequeno. Os países maiores foram refratários a injetar muito capital. E as guerras. A invasão da Ucrânia já está aí há quatro anos. O Oriente Médio, pegando fogo. Em outra dimensão, a pandemia e a ameaça que surjam outras. E o impacto dessa colossal revolução da inteligência artificial, repleta de oportunidades, mas também repleta de riscos.
Valor: E há a crise do clima.
Arminio: O tema climático é, por natureza, global. Requer uma resposta global, é da natureza de um bem público. Sem coordenação, o bem público fica mal atendido. Há países que não estão nem aí e outros que podem até fazer discurso respeitoso mas na prática também não fazem grande coisa. A Europa, acredito, vem liderando o esforço. Mas a possibilidade de um mercado global para carbono, organizado e que pudesse de fato ter o impacto necessário para ajudar a conter a escalada da temperatura hoje é um esforço totalmente prejudicado. Os Estados Unidos, no momento, não mostram ter visão estratégica. Há espaços não públicos que agem por conta própria, é verdade que alguns dos grandes compradores de carbono estão nos EUA, a despeito da falta de um mecanismo mais formal. Mas retomando a pergunta: é um mundo onde a ordem global acabou. Não adianta tentar pintar um quadro mais róseo. Acabou mesmo. E o que vem pela frente é difícil de prever. Transições hegemônicas tendem a ser períodos de turbulência.
Estado-nação é o que olha para dentro, que acredita no jogo de poder e joga pesado”
Valor: Por transição hegemônica, o que enxerga? Uma oportunidade para a China?
Arminio: A China vem se posicionando e querendo espaço. Na área econômica, construiu uma estratégia de crescimento baseada em exportações. É muito dependente do comércio. Trabalha com uma visão de longuíssimo prazo. Segue com o desenho institucional e político de um país dominado por um partido. É um regime autoritário com postura pró-mercado. Não é ingênua nem hiperliberal.
Valor: Mas é na China que o senhor pensa quando fala em transição hegemônica?
Arminio: O que quero dizer é que hoje, os EUA não são mais o G1. Temos a China com grande peso e numa situação de guerra fria meio escondida. Temos a Europa tentando se consolidar e agora sendo empurrada ao rearmamento. E a Rússia, que, economicamente não tem muito poder, mas militarmente tem. É um quadro em que o que foi durante anos o espaço de controle global, o G7 liderado pelos Estados Unidos, deixou de ser eficaz. Está tudo meio solto.
Valor: A guerra traz risco de estagflação prolongada para o mundo?
Arminio: Com esse cenário que vivemos, incomoda, a médio prazo, o endividamento global das nações. Está todo mundo muito endividado. Isso pode criar certas tensões econômicas. No momento, há o choque de oferta que tem origem claríssima no que acontece no Oriente Médio. Nos indicadores de mercado e implícito nos preços dos ativos ainda existe certo otimismo de que aquilo vai acabar bem, mas não há quem possa garantir. É um choque de oferta muito grande. Então, já está criando essa situação de estagflação.
Valor: Para o Brasil, o impacto sobre a inflação pode ser persistente? O Banco Central pode ficar sem espaço para reduzir a taxa de juro?
Arminio: Essa discussão no Brasil, às vezes, me parece um pouco fora do lugar, porque se espera muito do Banco Central. E o BC está aplicando remédio em uma dose maciça. Sempre tive um viés conservador com relação à atuação do BC, e acho que isso tem fundamento teórico e histórico. Mas hoje, acho preocupante um país que está com 80% do PIB de dívida pagando na média perto de 8% acima da inflação, uma economia que já mostra sinais de estresse. Embora tenham sido três anos de bom crescimento e desemprego baixo, e tudo isso é ótimo, mas ainda com taxa de investimento relativamente baixa e muita fragilidade fiscal, e, de certa forma, em decorrência dessas taxas de juro. Todo dia vemos notícias que as famílias estão endividadas e carregando dívidas pesadas. E há a questão das empresas. Há várias empresas listadas na bolsa que caíram 90%. Têm muita dívida e não aguentam.
Valor: Com o sr. analisa a questão fiscal?
Arminio: O presidente Lula já disse, “não se preocupem com o fiscal”. Foi o mesmo que ele disse na campanha passada, quando lembrou que, nos anos em que havia sido presidente o Brasil teve superávit fiscal sempre. E teve, e não foi pequeno. E isso deu condições de o Brasil lidar bem com a crise de 2008 – foi uma lição que devíamos ter aprendido. O Brasil foi bem comportado e, quando foi necessário fazer uma expansão fiscal, fez. Quando veio a pandemia, fez também, mas aí já colocando a dívida em um nível mais alto. E isso tem um limite. Hoje penso que essa situação macroeconômica não vai acabar bem. O que vai acontecer? Difícil prever. Normalmente o governo começa a encurtar o perfil da dívida e vai ficando refém das rolagens. Aí, daqui a pouco, vem outro choque. O Banco Central precisa de ajuda fiscal, mas imensamente. Não é coisa pequena. Há muitas áreas onde vai ser possível, se houver vontade política, dar uma guinada, mas isso hoje ninguém fala. Mesmo alguns economistas mais ortodoxos dizem que o Ministério da Fazenda está trabalhando bem e fez muita coisa boa. É fato e merece crédito. Mas o mais importante, na parte fiscal, não fez.
Valor: Com a crise, este é o momento em que as energias renováveis podem se fortalecer ou não?
Arminio: Acho que o Brasil tem posição privilegiada nessa área, com uma matriz bem limpa e com possibilidades boas nesse espaço. Mas, de novo, a resposta precisa ser global. O Brasil tem energia eólica, é um gigante em hidro. Espero que os rios não sequem. É uma potência solar, em biomassa. Tem tudo. O Brasil está muito bem nessa área, e isso é bom para o Brasil e para o mundo. Mas não significa que um choque de petróleo não vá nos afetar. Afeta pelos custos. E se o governo começar a subsidiar muito, do outro lado, o cobertor é curto porque não tem espaço fiscal para nada. E economicamente penso que não dá para subsidiar a ponto de não deixar o mercado funcionar nessa área. Tem que funcionar.
Os EUA não são mais o G1. Tem a China com grande peso em situação de guerra fria”
Valor: O senhor é investidor da re.green, empresa de restauro com projetos na Amazônia e na Mata Atlântica. Como vê esse potencial?
Arminio: O Brasil ainda tem uma fatia enorme de seu território intacta. Claro que existe desmatamento e tem que parar com isso. Sempre fui apaixonado pelo Brasil verde, pelo meu Rio de Janeiro verde. Sempre achei, e continuo a achar, que é a nossa cara. Vai além da questão do carbono, tem a ver com qualidade de vida, com autoestima. De repente fui procurado por pessoas amigas para investir na re.green e aquilo me fisgou rapidamente porque também acredito que o mercado de carbono é parte da solução. Na re.green estamos nos preparando para aumentar a escala do que fazemos.
Vejo muito espaço para crescer nessa área. Nosso projeto foi construído para ser em grande escala. Como nosso financiamento vem, principalmente, da venda de créditos de carbono, precisamos que haja comprador. Nesse sentido, a desordem global para nós é ruim, mesmo se, no momento, temos uma demanda ainda boa.
Valor: Do exterior?
Arminio: Sim, mas acho que teremos também alguma coisa daqui, o arcabouço ainda não foi desenhado. Ainda tem gente com mentalidade atrasada, que não quer exportar, que quer um carbono barato, mas isso é o Brasil velho. Inclusive, porque não existe carbono barato. Tem custo. Ninguém vai reflorestar para ter prejuízo. Se quiser, que faça isso, mas acho que seria um dinheiro mal gasto e existe alternativa melhor. E existe um elemento também da maior importância, que ainda não é suficientemente valorizado, que é a biodiversidade. Onde o Brasil também é campeão. É um ativo enorme.
Valor: Biodiversidade pode virar créditos também.
Arminio: Pode, mas não sabemos ainda como medir seu valor econômico. O carbono já é difícil. Carbono não é como minério, que se cava, tira, fica guardado e é possível medir a qualidade. Também não é soja, milho, café, laranja. Nós temos já reflorestamentos feitos, ou em implantação, na Bahia, no Pará, no Maranhão.
Valor: Na Mata Atlântica e na Amazônia.
Arminio: Isso. Mas, em síntese, o que é o carbono? Carbono é aquilo que se obtém quando as plantas crescem. A química dos seres vivos é a química do carbono. A química orgânica, que estudei na escola porque eu ia ser médico, é a química do carbono.
Então, as plantas vão crescendo e é possível saber a quantidade de carbono que existe em determinada área. É um assunto muito técnico, estou simplificando. O carbono obtido dessa maneira corre risco de ter algum problema -seca, fogo, praga – e retornar para a atmosfera. Em vez de ser capturado, deixa de ser.
Outro ponto é que o crédito de carbono da Mata Atlântica não é igual ao crédito de carbono da Amazônia. E um crédito de carbono do Pará não é igual ao crédito de carbono de Rondônia.
Valor: Por questões de risco, ameaças e custo?
Arminio: Por tudo isso. Uma novidade importante foi esse recente leilão de uma grande concessão florestal em Rondônia [o governo lançou em março, via Serviço Florestal Brasileiro, a primeira concessão do país para restauração, na Floresta Nacional do Bom Futuro]. São cerca de 100 mil hectares, divididos em dois lotes [a re.green venceu um dos lotes, com contrato de 40 anos e foco na restauração e na geração de créditos de carbono]. Esse é o primeiro passo do que pode se tornar a grande fronteira de captura de carbono no Brasil.
Valor: Por quê?
Arminio: As áreas públicas degradadas no Brasil são imensas. Para nós foi muito importante entrar. Entramos com muita convicção, sabendo dos riscos – de invasões e outros. Fizemos estudos profundos sobre o assunto. É um grande desafio, uma grande responsabilidade e algo novo.
Valor: Está claro qual o papel do Estado e qual o do capital privado? O senhor diz que as empresas não têm condições, nem é papel delas, de ter exércitos cuidando dessas áreas.
Arminio: Disse e repito. Segurança é uma questão de Estado. O Estado deveria ter o monopólio da força e estamos do lado do Estado nessa parada. O que vamos ter, sim, são sistemas de monitoramento caprichados e o apoio das autoridades locais e federais. Acho que vai haver interesse em que dê certo. Estou bem otimista porque é um primeiro piloto numa área difícil, muito degradada, onde essa floresta ainda existe. Esses espaços ainda estão, mais ou menos, 80% cobertos por floresta. Nos 15% do nosso lote vamos reflorestar e ficar de olho no resto.
Ali há também um mercado mais incipiente, mais polêmico, que é esse o dos créditos de preservação. Era um mercado que no início avaliamos que não era para nós. Mas depois, de certa maneira, nos demos conta de que tudo isso que estamos reflorestando tem que ser preservado. Então não dá para abrir mão. E tem quem pague [por créditos de carbono de preservação]. Paga-se muito menos do que para a restauração, mas tem um mercado ali e isso para nós é pioneiro também. E essa experiência, sendo boa, o céu é o limite. Pode ser algo enorme.
Valor: O mercado de créditos de carbono sofre com a guerra? A preocupação com a crise climática está de escanteio neste momento.
Arminio: Não vi ainda uma análise profunda, e eu certamente não tenho. O que posso dizer é que o preço do petróleo subindo faz nosso trabalho ser ainda mais valioso e importante. Precisamos torcer para que tudo se acalme e que essas guerras se resolvam.
Valor: Do ponto de vista de economia, o sequestro de carbono deveria receber algum benefício?
Arminio: Bem, estou aqui meio que defendendo a minha posição econômica. Mas, falando como economista: nós queremos reprimir o desmatamento e a emissão de gases-estufa. No sistema europeu, empresas são obrigadas a reduzir a sua pegada de carbono, o que, na prática, é um imposto. Deveria, simetricamente, ser natural um subsídio no caso de quem se dispõe a capturar carbono. Hoje, o subsídio que existe está vindo de fora, das empresas que estão comprando, ou porque são obrigadas, ou porque querem fazer isso como marca de boa cidadania global, ou porque acham que é melhor comprar agora, de repente vai ficar mais caro depois. Nós temos uma lista de compradores, mas não é a lista necessária para reflorestar o Brasil degradado.
Link da publicação: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/04/27/ordem-global-acabou-nao-adianta-pintar-um-quadro-mais-roseo-diz-arminio-fraga.ghtml
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

