Caberia ao governo criar condições favoráveis à redução dos juros, com um ajuste fiscal sério, com cortes criteriosos de despesas e o fim da prática de excluir gastos do limite imposto pelo arcabouço
Estadão
As oscilações no preço do petróleo na última semana, resultado das incertezas provocadas pelo conflito de Estados Unidos e Israel com o Irã, desautorizam qualquer prognóstico sobre o fim do período de ameaça inflacionária, ao menos no médio prazo. Nesse cenário, o Copom tem pouco espaço para reduzir os juros na reunião desta quarta-feira.
Um corte de 0,25 ponto porcentual é esperado por boa parte do mercado. Mas o número importa menos do que o cenário que se apresenta no momento, de um conflito internacional que mexe com preços da energia no mundo em um ano eleitoral no Brasil.
Está fora do alcance do Banco Central, do Fed, do Banco Central Europeu e de qualquer outro mensurar quando acabará o conflito e quando as pressões inflacionárias começarão a ceder. Assim sendo, a cautela é a melhor forma de as autoridades monetárias cumprirem sua missão de proteger as economias de seus países.
Haverá pressões sobre o BC por causa disso, não há dúvida. Pressionado por dados desfavoráveis de pesquisas eleitorais, o governo identificou um problema grave no endividamento das famílias. Decidiu por duas medidas paliativas, de curto prazo: liberar uma parcela do FGTS e reeditar um programa de renegociação de dívidas.
São medidas para o horizonte eleitoral, de seis meses. Podem surtir efeito nas finanças pessoais e na popularidade. Mas a saída estrutural é mais complexa. O endividamento das famílias está relacionado a múltiplos fatores, que envolvem até o crescimento do mercado de apostas online, e são várias as medidas a serem tomadas para atacar o problema em suas diversas faces.
Mas, do ponto de vista macroeconômico, caberia ao governo criar condições favoráveis à redução dos juros. Um ambiente com juros menores não só faz com que dívidas cresçam menos rápido, como gera mais empregos e renda.
Da parte do governo, isso significaria um ajuste fiscal sério, com cortes criteriosos de despesas e o fim da prática de excluir gastos do limite imposto pelo arcabouço fiscal. Contudo, como sabemos, isso parece impossível num ano eleitoral. É uma agenda que terá de esperar por 2027, qualquer que seja o governo.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, que vinha sendo poupado, começou a sofrer críticas de parlamentares da base do governo. Tudo bem, isso faz parte da rotina do presidente do BC. O que precisamos saber é que criticar não vai fazer os juros baixarem significativamente na quarta-feira, 29, nem vai apontar soluções para o endividamento das famílias. O caminho para isso é mais difícil.
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