Folha
Uma hora trabalhada no Brasil produz 20% de uma hora trabalhada nos Estados Unidos. Esse é o motivo de sermos mais pobres do que cidadãos de países de renda elevada. Os trabalhadores brasileiros —isto é, na média, todos nós— somos menos eficientes.
A questão é sabermos quanto dessa menor produtividade está embutida nos trabalhadores, nas pessoas, e quanto se deve a fatores externos às pessoas. Quanto do entorno determina a baixa produtividade do trabalho?
Até a década de 1980, nada sabíamos sobre essa pergunta. Hoje, sabemos bem mais.
A diferença de produtividade entre países pode estar embutida nas pessoas, isto é, os trabalhadores de um país, por algum motivo, são intrinsecamente menos produtivos do que os de outro país. Pode ser também que a diferença de produtividade resulte de características externas às pessoas.
A diferença intrínseca deve-se às habilidades cognitivas e socioemocionais das pessoas. Habilidades cognitivas dizem respeito à capacidade que as pessoas têm de resolver problemas, de se expressar bem em linguagem falada ou escrita, de dominar uma língua estrangeira etc.
As habilidades socioemocionais estão associadas à capacidade de cálculo prospectivo, capacidade de aguentar frustração, de persistência, de concentração. São habilidades que não nascemos dominando. Ambas, as habilidades cognitivas e socioemocionais, são treinadas e apreendidas em casa e, sobretudo, na escola.
Já o que cabe ao entorno, na produtividade, depende da qualidade do marco legal e institucional no qual a economia opera. A legislação tributária e trabalhista estimula a eficiência econômica? Há litigiosidade em excesso, fruto de regras e de legislação ruim? Um conjunto imenso de leis, regras e regulações pode estimular comportamentos que elevem a produtividade social ou que reduzem a produtividade social.
Assim, a baixa (ou elevada) produtividade resulta de um delicado balanço entre causas externas aos indivíduos e de habilidades que estão embutidas nos indivíduos.
Como é possível separar a diferença de produtividade que há entre as economias em, de um lado, uma parcela que está embutida nas pessoas, e, de outro, uma parcela devida ao entorno, que condiciona as condições de trabalho?
A forma que os economistas que estudam desenvolvimento econômico encontraram para fazer isso foi estudar o ganho de renda dos trabalhadores quando eles migram de um país para outro.
Não faz muito tempo tornou-se possível construir bases de dados com a remuneração de imigrantes que trabalham nos EUA e que antes viviam e trabalhavam em outros países. O pulo do gato é que essas bases de dados têm informações do trabalhador antes de emigrar e depois.
Se a diferença de produtividade resulta sobretudo de características externas aos trabalhadores, seria de esperar que sua renda, ao emigrar, subisse bastante. Por outro lado, se a maior parte da produtividade de um trabalhador resulta de atributos embutidos na pessoa, ao migrar a renda não deveria mudar muito. Afinal, o trabalhador é o mesmo.
Assim, o ganho de renda de um trabalhador ao emigrar indica a parcela da diferença de produtividade que está embutida no trabalhador e a parcela que se deve ao entorno.
Os estudos sugerem uma decomposição meio a meio: ao que tudo indica, 50% da produtividade se deve a fatores embutidos no trabalhador, e os outros 50%, ao entorno.
Uma coluna de economia de um jornal é com frequência portadora de más notícias. Na coluna de hoje, temos que 50% da diferença de renda entre o Brasil e os EUA está embutida em nós.
Minha avaliação é que meu colega Victor Rangel, responsável pela coluna Econometria Fácil, é bem mais otimista do que eu. Convido o leitor a assistir ao vídeo.
Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2026/05/produtividade-baixa-a-culpa-e-nossa.shtml
As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

