Fundador da Lumina Capital diz mercado de capitais tem dificuldade de precificar contingências
Valor
A sequência de reestruturações corporativas mexeu com os preços dos títulos de crédito – mas os prazos mais curtos e o custo elevado do dinheiro no país tendem a limitar repercussões sistêmicas, na avaliação de Daniel Goldberg, sócio-fundador da Lumina Capital.
O que ele observa é que há uma classificação de risco para determinados títulos que não correspondem à real volatilidade do negócio em sua essência e que há ainda uma dificuldade do mercado em avaliar as continências que podem ficar de fora de um balanço financeiro.
Já no mercado americano, o recente chacoalhão de preços no crédito privado pode ser só o começo de um ajuste “dramático”.
Pipeline: Os sinais de estresse no mercado de crédito privado americano indicam a iminência de um episódio como o dos subprime em 2008?
Goldberg: Crédito privado compreende muita coisa diferente. Certamente, há excessos em um mercado que cresceu muito, mas o perigo de risco sistêmico sempre vem associado à alavancagem. Hoje, globalmente, a interseção entre um deslocamento no mercado de crédito privado e o sistema financeiro como um todo está nas grandes plataformas de seguro e resseguro. A questão é a magnitude do potencial problema e quais são os “buffers” de capital disponíveis para absorver um eventual “mark down” dos livros.
Pessoalmente, não vejo esse deslocamento, por si só, como algo superproblemático. As crises realmente profundas raramente vêm por uma razão apenas. Para algo no estilo de 2008 surgir, você precisa de uma combinação de fatores de estresse.
Dito isso, os spreads de crédito, que indicam o apetite de risco, mostram um mercado ainda extremamente complacente. Entre riscos de IA para as companhias de software – que são cerca de 15% do mercado de empréstimos alavancados em crédito privado –, guerra no Irã e choque nos preços de petróleo, tarifas, descasamento entre ativos e passivos de bancos médios nos EUA, e agora os resgates no mundo do crédito privado, não deixa de ser surpreendente que os prêmios de risco estejam ainda tão tímidos.
Quando – e se – esse movimento vier, espero algo bem mais dramático.
No Brasil, o crédito privado cresceu nos últimos anos com os juros altos e as plataformas de investimento. Esse crescimento cria riscos que ainda não apareceram?
O crédito privado cresceu muito no Brasil, mas os prazos são curtos e o custo do dinheiro é alto. Quando os ajustes vêm, perde-se dinheiro, mas as repercussões para o sistema tendem a ser limitadas.
Os recentes casos de defaults, fraudes e pedidos de recuperação judicial e extrajudicial de empresas no Brasil mudam a visão do mercado sobre o risco corporativo no país?
O universo de empresas que têm grau de investimento – portanto, acima do soberano – por definição gravita para exportadoras: Embraer, Suzano, Vale. Algumas delas, como nos casos de Raízen e Braskem, nunca deveriam ter sido vistas pelo mercado como absolutamente seguras do ponto de vista de crédito, pelo motivo simples de que a qualidade e a ciclicalidade dos negócios sempre merecem atenção.
Açúcar e etanol e petroquímica são dois negócios dificílimos. No caso da petroquímica, ciclos duros como o atual trazem, tipicamente, reestruturações no mundo inteiro.
Ainda é possível confiar nos balanços das companhias?
O problema não está em os balanços serem ou não confiáveis, mas sim em indústrias que enfrentam um momento extremamente complicado.
Os prêmios no crédito corporativo brasileiro refletem adequadamente os riscos institucionais, fiscais e específicos das empresas ou dos seus setores?
Acho que uma das coisas que o mercado de capitais entende muito mal – e tem imensa dificuldade de precificar – são as contingências. O que você vê no Brasil não se vê em outros lugares do mundo, e o investidor estrangeiro calibra mal o valor de recuperação de ativos por assumir que o Brasil é como outros mercados.
A dimensão de passivos fiscais e trabalhistas fora de balanço que uma companhia tipicamente acumula no Brasil é impressionante. Aí se assustam quando um caso como o do GPA aparece, em que a companhia acumula contingências que são múltiplas vezes o valor de capitalização em bolsa e eventualmente acaba entrando em reestruturação, a despeito do seu momento operacional.
Você já disse que, no caso do Banco Master, “o ecossistema dormiu no ponto”. Foi um caso isolado ou pode se repetir?
Espero que tenha sido um caso isolado.
Esse evento nos deixou mais próximos de virar um ‘Réxico’ (Rússia no topo e México na base), como você também já definiu?
Esse evento me parece muito mais sintoma do que causa. Precisamos de um choque de institucionalidade no Brasil.
Link da publicação: https://pipelinevalor.globo.com/mercado/noticia/goldberg-dimensao-de-passivos-fora-de-balancos-e-impressionante.ghtml
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