Folha
Na semana passada, nesta Folha, Bernardo Carvalho voltou a uma pergunta que se tornou recorrente: o que distingue antissemitismo de antissionismo? Para respondê-la, o texto recorre à leitura do texto de Freud “Moisés e o Monoteísmo” feita pelo crítico literário palestino Edward Said, para argumentar que o sionismo teria construído a identidade judaica sobre o apagamento de suas próprias origens. O ponto problemático não é Freud. É o que Carvalho faz com Said.
O próprio Freud, ao falar de si e não de Moisés, descreve em carta a uma associação judaica de Viena seu vínculo com o judaísmo como feito de “grandiosas e obscuras potências emocionais” e de “uma clara consciência de uma identidade íntima” e considera indigno e absurdo negá-lo. Não é a imagem de uma identidade fictícia. É a de alguém que não é religioso nem nacionalista e, ainda assim, reconhece um vínculo que não consegue expressar em palavras, mas que não hesita em afirmar.
Mesmo quando formula uma hipótese reconhecidamente (por ele!) especulativa sobre a origem do judaísmo, não a apresenta como um fato histórico estabelecido. Carvalho convoca Freud como testemunha. Freud recusa-se a depor.
A falha central do texto reside em tratar esse processo como excepcional no caso judeu. O processo de formação histórica do judaísmo, como em tantos outros casos marcado por misturas, deslocamentos e recomposições, é utilizado para sugerir que não haveria uma base coletiva suficientemente consistente para sustentar um Estado-nação.
É um argumento que toma um traço comum à formação da grande maioria dos Estados nacionais e o converte em instrumento de deslegitimação: o que é reconhecido como parte integral do processo histórico de surgimento dos Estados-nação em geral é tratado aqui, seletivamente, como algo que desqualifica o próprio processo de constituição da nação judaica e do Estado de Israel.
Na sequência, o texto introduz um segundo argumento, o de que o sionismo seria um projeto colonial. Essa caracterização não se sustenta diante da realidade histórica: o sionismo carece da característica definidora do colonialismo, que é a existência de uma metrópole colonizadora voltada à exploração econômica de um território conquistado. Diferentemente das expansões imperiais, os judeus não constituíam nem representavam uma potência externa em nome da qual agiam. Não tinham para onde retornar: estavam se movendo em direção ao seu próprio centro político e histórico.
A dicotomia entre europeu e não europeu que sustenta esse argumento tampouco resiste ao exame histórico: comunidades judaicas viveram em Israel, no Iraque, na Síria, no Egito e em Marrocos por milênios, algumas desde o exílio babilônico, séculos antes de qualquer presença judaica significativa na Europa.
Não são detalhes técnicos. São a diferença entre analogia e distorção. O judaísmo não é um fenômeno europeu transplantado para o Oriente Médio. É o contrário.
Além disso, a tese de uma identidade homogênea imposta sobre uma diversidade apagada ignora um dado mais profundo. Embora dispersas por séculos em regiões distantes, comunidades judaicas preservaram um núcleo comum de práticas e tradições que nunca as deixou desligar-se umas das outras nem, principalmente, da terra de Israel.
A formação social do Estado de Israel não rompe com esse padrão; ao contrário, o torna visível. Um país onde mais da metade da população judaica é descendente de comunidades do Oriente Médio e do Norte da África não corresponde à imagem do europeu colonizador, na composição da sua população nem no funcionamento das suas instituições. A narrativa não descreve Israel. Descreve o país que o argumento precisaria que fosse.
Questionar políticas de governo é um exercício legítimo e necessário; outra coisa é a deslegitimação do próprio Estado. A distinção entre antissemitismo e antissionismo pode fazer sentido em tese. Na prática, porém, o que importa não são as intenções declaradas, mas as ações e os critérios efetivamente adotados.
Uma crítica à ideia de Estados nacionais só se sustenta como posição coerente quando aplicada de forma geral, e não dirigida a um único caso. Quando a crítica a Israel adota, de forma recorrente e deliberada, padrões de julgamento que não se aplicam a nenhum outro Estado e põe em questão a sua própria legitimidade, a crítica deixa de ser apenas política e se converte em discriminação. Essa discriminação tem nome: antissemitismo.
Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/04/resposta-questionar-legitimidade-de-israel-como-estado-e-antissemitismo.shtml
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