Artigos

O déjà-vu de sempre

Veja

O PT já nem consegue achar novos culpados para seus erros

Segundo documento do PT, “a meta [de inflação] de 3% foi um erro”. Ao contrário, o governo deveria ter “meta permanente de juros de um dígito”, com apoio de reservas internacionais, sob gestão do BC “democratizada e compartilhada com setores produtivos e representantes do trabalho”.

O documento é novo, mas as ideias – e sua aplicação ao Brasil – são velhos conhecidos, ou nem tão velhos assim, já que nos referimos a experimentos de política monetária realizados entre 2011 e 2016. Naquele intervalo o BC era presidido por Alexandre Tombini e praticamente não havia membros da diretoria do órgão oriundos do setor privado, isto é, a tal da “alternativa à captura estrutural do Banco Central pelos agentes rentistas” também era uma realidade.

No caso, a taxa básica de juros foi mantida na “meta permanente” de um dígito entre o início de 2012 e o final de 2013, apesar de expectativa de inflação persistentemente acima da meta.

A alternativa à política monetária – além das restrições ao crédito, à época rebatizadas de “regulação macroprudencial” – foi a venda agressiva de dólares no mercado futuro de câmbio por meio de swaps: de maio de 2013 a abril de 2015 foram quase US$ 115 bilhões, equivalentes a pouco menos de um terço das reservas do BC em moeda forte.

O resultado do experimento deveria falar por si: a inflação ficou em média 2,4% acima da meta, apesar de controles de preços de combustíveis e energia elétrica, em particular em 2013 e 2014, convenientemente antes da eleição presidencial. Em 2015, quando os controles se tornaram insustentáveis e o dólar explodiu, a inflação atingiu dois dígitos. No mesmo ano, as perdas com swaps chegaram a pouco mais de R$ 100 bilhões.

A proposta de “democratização” da política monetária e creditícia tampouco é inédita. O Conselho Monetário Nacional, então sua instância máxima, teve mais de 10 integrantes, incluindo os presidentes do BB, BNDES, representantes de ministérios econômicos e do setor privado, não por coincidência também no período da hiperinflação.

Que o PT não tenha, como os Bourbon, esquecido nada nem aprendido nada, não chega a ser surpresa. O que, de certa forma, me surpreende (mas não deveria) é a avaliação que a política econômica em curso seja refém do nosso malvado predileto, o “neoliberalismo”, a quem se atribui todas as mazelas econômicas do país, mas particularmente as dificuldades que o presidente enfrenta na busca por mais uma reeleição.

A verdade é que o atual governo indicou toda diretoria do BC. O ministério da Fazenda, centro da política econômica, foi entregue a um político egresso do partido, inclusive agora candidato a governador de São Paulo, e seus cargos-chave preenchidos por pessoas que, acredito, jamais se considerariam neoliberais. No máximo, me divirto com a ideia, concordariam em confessar publicamente algum desvio ideológico se isto contribuísse para as chances de reeleição.

Não se trata apenas do antigo dito homérico, “a culpa é minha e eu boto em quem eu quiser”. Chegamos ao ponto em que a falta de ideias novas ao governo (assim como o PT) limita até mesmo sua capacidade de encontrar algum novo espantalho a quem atribuir a conta dos inúmeros desarranjos de sua política econômica.

Link da publicação: https://veja.abril.com.br/coluna/alexandre-schwartsman/o-deja-vu-de-sempre/

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Alexandre Schwartsman