Otimismo de curto prazo dos investidores em relação ao Brasil tem deixado em segundo plano esses dois problemas estruturais do país
Valor
Por Sergio Lamucci
O Brasil caiu no gosto de muitos investidores estrangeiros, como se vê pelo comportamento do real e da bolsa. O país é um dos emergentes que mais se beneficiam da alta dos preços do petróleo, por ser um exportador líquido da commodity, ainda que o aumento das cotações tenha um impacto inflacionário. Os juros elevadíssimos também atraem os investidores que querem aproveitar a diferença entre as taxas internas e externas. Como pano de fundo, a diversificação de recursos dos EUA para outros países, o que se traduz no enfraquecimento do dólar no mercado global.
Essa combinação de fatores leva a moeda americana a operar abaixo de R$ 5 por aqui, enquanto o Ibovespa avança mais de 18% no ano. Com esse otimismo de curto prazo, os investidores têm deixado em segundo plano os problemas estruturais do Brasil, que continuam preocupantes e sem solução à vista, em especial o desempenho fraquíssimo da produtividade e as incertezas sobre as contas públicas. Sem enfrentar esses obstáculos, o país não sairá do crescimento medíocre das últimas décadas, o que tende a limitar o entusiasmo do capital estrangeiro pelo Brasil.
A produtividade do trabalho cresceu apenas 0,4% em 2025, segundo cálculos do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). O resultado só foi positivo pelo crescimento de 13,2% da agropecuária – na indústria, houve queda de 0,3% e nos serviços, recuo de 0,6%, como o Valor mostrou na semana passada. Esses números são obtidos pela comparação do valor adicionado – variável próxima ao PIB, mas que exclui impostos e subsídios – com as horas efetivamente trabalhadas.
Nos últimos 30 anos, a produtividade do trabalho mostra um desempenho parecido com o do ano passado. Entre 1996 e 2025, a alta do indicador foi de apenas 0,8% ao ano. O único setor em que há expansão a taxas expressivas é justamente a agropecuária, com avanço de 6,1% anuais. Nos serviços, houve aumento médio de 0,2% e, na indústria, recuo de 0,2%.
“Em suma, o desempenho da produtividade do trabalho agregada da economia brasileira é totalmente dependente do setor da agropecuária”, resume a economista Silvia Matos, coordenadora do Observatório de Produtividade Regis Bonelli. O setor tem conseguido ganhos de eficiência elevados ao longo dos anos em boa medida graças a inovações da Embrapa.
Com um desempenho tão pífio da produtividade agregada, o PIB brasileiro continuará a avançar pouco, especialmente num cenário em que já ficou para trás o bônus demográfico, o período em que a população em idade ativa cresce a um ritmo superior ao da população total. Isso indica que terminou a fase mais favorável da estrutura etária para o crescimento. Para o PIB ter uma expansão mais forte, é indispensável que a produtividade aumente mais.
Os ganhos de eficiência mais significativos, desse modo, não podem se concentrar apenas na agropecuária, que em 2025 respondeu por apenas 7,4% das horas trabalhadas no país. A fatia da indústria é de 20,6%, e a dos serviços, de 72%. “Apenas em períodos em que houve uma aceleração no ritmo de crescimento da produtividade do trabalho dos serviços é que foi possível a produtividade agregada crescer a taxas mais elevadas, acima de 1% ao ano”, escreve Silvia Matos. “Como este setor tem o maior peso na economia, tanto em termos de valor adicionado e de emprego, o seu desempenho é determinante para o resultado agregado.” Também preocupa o mau desempenho da produtividade na indústria brasileira.
Ao comentar o resultado mais recente do indicador, a economista destaca um quadro bastante negativo. “Algo que chama a atenção é o baixo crescimento da produtividade nos últimos seis anos, de apenas 0,3% ao ano, em um contexto de elevado crescimento econômico”, diz Silvia Matos. Em geral, observa ela, a produtividade do trabalho tem um comportamento mais pró-cíclico, ou seja, tende a aumentar mais quando a economia cresce a taxas mais altas.
A reforma tributária aprovada em 2023 deve ter um impacto positivo sobre a eficiência na economia, mas a implementação das mudanças do sistema de impostos será lenta. Lançado em março pelo Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), o livro “Caminhos do Desenvolvimento: Estabilizar, Crescer, Incluir” tem um dos volumes dedicado à agenda para melhorar a produtividade, coordenado pelo economista Fernando Veloso, diretor de pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds). As propostas destacam a importância de “reduzir distorções do ambiente de negócios, diminuir a insegurança jurídica, melhorar o capital humano dos trabalhadores e criar condições para a expansão da infraestrutura”, trazendo também recomendações “para aumentar a eficiência do setor público e aprimorar sua governança”. O trabalho traz um conjunto amplo de diagnósticos e sugestões para enfrentar o problema da baixa produtividade, uma agenda que deveria ser prioridade de qualquer candidato à Presidência na eleição deste ano. Sem tratar do tema com firmeza, o crescimento do Brasil continuará anêmico.
Além da dificuldade para obter maiores ganhos de eficiência, as incertezas sobre as contas públicas também impedem a economia de crescer a taxas mais robustas. As despesas obrigatórias crescem a um ritmo insustentável, levando ao aumento contínuo da dívida pública como proporção do PIB. O desequilíbrio fiscal é o principal fator por trás dos juros estruturalmente altos do país.
Enfrentar os problemas das contas públicas, aliás, também contribui para aumentar a produtividade da economia. Os juros elevados encarecem o custo de capital e desestimulam o investimento na modernização e ampliação da capacidade produtiva.
Com baixa produtividade e fragilidade fiscal, o Brasil não vai engatar um período duradouro de crescimento sustentado. O interesse atual dos investidores estrangeiros pelo país é positivo e ajuda a valorizar o câmbio, num momento de pressões inflacionárias causadas pela alta do petróleo. No entanto, esse fenômeno tende a ser limitado enquanto o país não sair da armadilha de baixo crescimento, o que requer uma economia mais produtiva e contas públicas sólidas.
Link da publicação: https://valor.globo.com/brasil/coluna/produtividade-anemica-e-incerteza-fiscal-travam-o-crescimento.ghtml
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

