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Risco maior não é militar; é financeiro

  • Designação de PCC e CV como organizações terroristas pode prejudicar operações internacionais legítimas
  • Se o Brasil tivesse combatido com mais eficácia os canais financeiros, EUA teriam menos espaço para agir unilateralmente

Folha

Na semana passada entrou em vigor a decisão dos EUA de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A reação brasileira seguiu um padrão conhecido: debate-se o cenário mais ruidoso e menos provável, enquanto se ignora o canal de transmissão mais imediato.

Esse canal não é militar. É financeiro. O Brasil é grande demais para ser tratado como México ou Venezuela. Mas seus cidadãos e empresas dependem de bancos, comércio exterior e investimentos conectados ao sistema financeiro global.

A primeira consequência provável será o aumento da cautela das instituições financeiras. Quem estiver com cadastros, origem de recursos e documentação em ordem provavelmente seguirá operando. Quem não estiver poderá enfrentar o chamado “de-risking”: o encerramento preventivo de relações por bancos que preferem perder clientes a correr o risco de servir, ainda que sem saber, alguém associado a uma entidade designada pelos Estados Unidos.

Na prática, isso pode significar atrasos, bloqueios ou dificuldades em operações internacionais legítimas. O problema não será apenas de quem comete crime. Será também de quem não consegue provar rapidamente que não tem relação alguma com ele.

A segunda consequência será o custo. Processos de diligência e monitoramento tendem a ficar mais caros e mais lentos. Instituições internacionais deverão exigir mais informações de clientes brasileiros.
Há ainda um agravante. Em sanções tradicionais, autoridades americanas costumam divulgar nomes, documentos e empresas relacionadas aos alvos. Neste caso, foram designadas facções, não indivíduos.

Na prática, transfere-se ao sistema financeiro a tarefa de identificar quem pode estar ligado a uma facção criminosa. E essas organizações já não vivem apenas na marginalidade visível —mostram sua presença em setores formais da economia, como combustíveis, logística, comércio e serviços.

O ônus que deveria ser do designador acaba deslocado para bancos e empresas privadas, sem instrumentos claros para execução. O incentivo regulatório passa a ser simples: na dúvida, bloqueie, encerre, não processe.

Há quem argumente, com razão, que a classificação comete um erro conceitual. Terrorismo pressupõe objetivo político. PCC e CV são organizações de finalidade econômica. Mas existe uma verdade desconfortável: se o Brasil tivesse combatido com mais eficácia os canais financeiros do crime organizado, Washington teria menos espaço para agir unilateralmente.

Durante décadas discutimos segurança pública como confronto armado, ocupação territorial e estatísticas de violência. Falamos pouco sobre lavagem de dinheiro, beneficiários finais, fintechs, comércio exterior, mercado imobiliário e estruturas financeiras que sustentam o crime.

No segundo mandato de Donald Trump, a combinação entre segurança nacional, comércio, geopolítica e sanções tornou-se método. A designação de PCC e CV não deve ser vista como episódio isolado, mas como parte de uma diplomacia que utiliza instrumentos financeiros para produzir efeitos políticos.

O Brasil deveria rejeitar interferências externas. Mas deveria fazê-lo com menos indignação performática e mais capacidade de enfrentar o problema dentro de casa. Porque o risco maior, agora, não é a intervenção militar. É acordar tarde demais para descobrir que a praça financeira brasileira passou a ser tratada como território contaminado.

Link da publicação: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/06/risco-maior-nao-e-militar-e-financeiro.shtml?utm_source=sharenativo&utm_medium=social&utm_campaign=sharenativo

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Sobre o autor

Lucia Hauptman