A cor dos gatos

Alexandre Schwartsman

Estadão

As ações do governo justificam a reação do mercado financeiro 

De acordo com o ministro da Fazenda, o mercado financeiro exibiria “preconceito fiscal” contra o governo, incapaz de admitir, segundo ele, “o histórico positivo das contas públicas”. No que me diz respeito, reconheço ser incapaz de admitir o tal histórico positivo, em particular porque, no caso deste governo, os números me contam exatamente o contrário. 

Segundo a Secretaria do Tesouro, muito embora a arrecadação federal tenha aumentado em R$ 362 bilhões, a preços de hoje, entre 2022 e os 12 meses até julho de 2026 (R$ 299 bilhões após as transferências a estados e municípios), o resultado fiscal piorou em R$ 130 bilhões. Isto porque a despesa federal aumentou em R$ 429 bilhões, aumento 20% acima da inflação. 

Se é isto que o ministro da Fazenda chama de histórico positivo, me apavora pensar o que ele consideraria negativo. 

Todavia, na mesma entrevista, Durigan prometia que, como diria o Rei, “daqui pra frente, tudo vai ser diferente”. Em suas palavras, “se eu fizer uma melhoria dos programas sociais para gerar mais eficiência nos processos, eu já melhoro para 2027 o meu compromisso com o superávit”.

A tinta da entrevista nem havia esfriado e o mesmo governo anunciou reajuste de 15% no Bolsa-Família, com impacto estimado de cerca de R$ 6 bilhões em 2026 e, mais importante, R$ 23 bilhões em 2027.

Não era a única tinta ainda quente. Duas semanas antes fora enviado ao Congresso o projeto de lei orçamentária para 2027, do qual, diga-se, não constava o tal reajuste. 

Por mais que o ministro e alguns analistas defendam a suposta legalidade da manobra às vésperas da eleição, não é esse o principal problema. Sem receio da obviedade, o nó da questão consiste em elevar os gastos em R$ 23 bilhões de forma permanente, em momento de evidente conveniência eleitoral, repetindo a mesma insensatez fiscal que caracterizou a chamada “PEC Kamikaze”, aprovada no final do governo Bolsonaro. 

Quando a gestão da política econômica em geral, e da fiscal em particular, se subordina aos ditames eleitorais não há como caracterizá-la como responsável, pelo contrário.  Neste sentido, a percepção do mercado acerca do governo Lula nada tem de preconceituosa. Foi, a bem da verdade, até mais suave do que observada em junho de 2022, enquanto a PEC Kamikaze avançava em meio a uma forte deterioração do cenário externo, o dólar subia cerca de 10%, a bolsa caía 11,5% e os juros futuros avançavam. 

Parafraseando o camarada Deng, se o gato não caçar o rato, de muito pouco nos interessa saber qual é a sua cor.

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