Brincando com fogo

Alexandre Schwartsman

Mercados têm o hábito de não esperar a conveniência dos BCs

Veja

A calmaria internacional durou pouco. Bastou a retomada dos ataques no Golfo Pérsico para que o petróleo voltasse a testar os 100 dólares por barril. Embora os preços tenham recuado desde então, seus efeitos potenciais sobre a inflação permanecem relevantes.

Assim, convém não exagerar no entusiasmo quanto ao recuo da inflação nos EUA em junho, pois ela permanece bem acima da meta. Além disso, a economia continua exibindo notável resiliência, expressa em crescimento robusto do consumo e do investimento, este último impulsionado pelo boom de IA.

Esse ambiente justificaria cautela adicional por parte do Federal Reserve. Não foi, porém, a impressão deixada pela reunião de julho. A divisão de votos no FOMC e, sobretudo, as declarações de seu novo presidente reforçaram a percepção de menor disposição para enfrentar pressões inflacionárias.

O mercado respondeu reduzindo as apostas de aperto monetário, mas exigindo remuneração maior para carregar títulos longos, elevando os rendimentos das Treasuries e enfraquecendo o dólar. Em outras palavras, se a intenção era transmitir serenidade, o resultado lembrou mais complacência.

Já no Brasil, a valorização do real, a desaceleração recente da inflação e a moderação da atividade abrem espaço para mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, exatamente como indicado pelo mercado e pela pesquisa Focus. O problema, contudo, vai além da próxima decisão.

“Tanto o Fed quanto o Copom parecem crer que sempre haverá tempo para combater a inflação”

Desde 2023, as projeções oficiais do próprio Banco Central têm indicado inflação acima da meta no horizonte relevante. Ainda assim, em praticamente todas as reuniões, o Copom limitou-se a validar a trajetória de juros embutida na Focus, embora ela não fosse compatível com a convergência tempestiva da inflação. A impressão é de que o Banco Central passou a preferir uma desinflação mais lenta, buscando reduzir seus custos sobre a atividade.

Tal estratégia, contudo, cobra seu preço. Quando o público acredita que a inflação retornará rapidamente à meta, esta passa a orientar naturalmente as expectativas. Se, ao contrário, a convergência é empurrada para um futuro cada vez mais distante, a inflação corrente ganha peso crescente na formação das expectativas. Em consequência, choques temporários tornam-se mais persistentes, contaminando projeções inclusive para horizontes longos, dificultando a queda da inflação.

O quadro torna-se ainda mais delicado diante dos estímulos governamentais. Enquanto os juros elevados procuram conter a demanda, aqueles caminham na direção oposta, retardando ainda mais a convergência da inflação. Porém, enquanto a taxa de juros de curto prazo cai lentamente, as taxas de longo prazo seguem batendo recordes. Até agora, parece, mais sob a influência do cenário internacional do que do doméstico.

Seria imprudente, contudo, concluir que esse quadro permanecerá. Na ausência de mudanças relevantes na trajetória fiscal, os prêmios de risco podem voltar a subir de forma significativa, pressionando os juros reais, reduzindo o investimento e comprometendo o crescimento.

Afinal, tanto o Fed quanto o Copom parecem acreditar que sempre haverá tempo para combater a inflação. Mercados, contudo, têm o desagradável hábito de não esperar o momento que os bancos centrais consideram conveniente.

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As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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