Mario Mesquita, ex-economista-chefe do Itaú e ex-diretor de Política Monetária do BC, afirma que o Brasil se acostumou a crescer abaixo do potencial
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Um dos economistas mais respeitados do país, o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central Mario Mesquita afirmou nesta quinta-feira, 30, que o Brasil passou a considerar satisfatório um ritmo de crescimento econômico que está muito abaixo de seu potencial.
Ex-economista-chefe do Itaú Unibanco e hoje referência para investidores e formuladores de política econômica, Mesquita encerrou o Inside LatAm Brasil 2026, conferência promovida pela agência de classificação de risco Moody’s, realizada em São Paulo.
Durante o painel, o economista afirmou que o país deveria ser mais ambicioso em relação ao desempenho da economia.
Para ele, celebrar uma expansão de cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) significa aceitar um desempenho modesto diante da capacidade produtiva brasileira.
“Crescemos muito menos do que o mundo há muito tempo. Não estou apavorado, estou frustrado”, afirmou.
Na avaliação de Mesquita, o início de 2026 foi positivo, mas os sinais mais recentes apontam para uma perda de fôlego da atividade econômica.
Segundo ele, indicadores de alta frequência, como as vendas do comércio, o setor de serviços e a produção industrial, mostram que a economia começou a desacelerar depois de um primeiro trimestre mais forte.
Por isso, sua expectativa é de que o PIB brasileiro cresça aproximadamente 2% neste ano. Para 2027, o cenário é ainda mais moderado. Mesquita estima uma expansão próxima de 1,6%, em um ambiente em que parte dos estímulos à economia deve desaparecer após o período eleitoral.
O economista também chamou atenção para um problema que considera estrutural: a trajetória das contas públicas.
Embora afirme que ainda seja cedo para prever qual será a estratégia econômica do próximo governo, ele acredita que uma conclusão já pode ser tirada.
“A única coisa certa é que a dívida pública continuará crescendo”, disse.
Segundo Mesquita, o aumento contínuo do endividamento tende a afetar o valor dos ativos brasileiros no longo prazo e reduz a confiança dos investidores.
Ainda assim, ele avalia que algum tipo de ajuste fiscal deverá ser adotado na próxima administração, embora ainda seja impossível saber se ele virá por meio de cortes de gastos, aumento de receitas ou uma combinação das duas medidas.
Na sua avaliação, estabilizar a dívida pública, hoje próxima de 80% do PIB, exigirá mudanças nas regras que tornam parte das despesas obrigatórias, como a vinculação constitucional de recursos para saúde e educação.
Para ele, um ajuste gradual parece ser o caminho mais provável, mas considera que a velocidade de crescimento da dívida já é excessiva.
Mesquita também dedicou parte de sua apresentação à política monetária.
Apesar da desaceleração da economia, afirmou que a inflação continua resistente e permanece, na maior parte do tempo, acima da meta de 3% definida pelo Conselho Monetário Nacional.
Para o economista, o Banco Central não toma decisões olhando apenas para os índices de inflação do momento, mas principalmente para as projeções dos próximos anos, já que os efeitos dos juros demoram a aparecer sobre os preços.
“Se fosse pela inflação corrente, não era para o Banco Central estar cortando os juros, mas ele está mirando na inflação à frente”, explicou.
Mesmo assim, Mesquita afirmou que existe um fator que continua preocupando a autoridade monetária: em praticamente todos os cenários analisados pelo Comitê de Política Monetária (Copom), a inflação ainda não converge para a meta de forma consistente.
“No lugar deles, também estaria desconfortável”, disse.
O economista também comentou o cenário internacional e avaliou que o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, tem encontrado dificuldades para cumprir seu principal objetivo de controlar a inflação, apesar do bom desempenho do mercado de trabalho americano.
Na visão dele, há uma possibilidade elevada de que os juros voltem a subir na próxima reunião da instituição, prevista para setembro.
“Se Kevin Warsh está mesmo preocupado com a inflação nos Estados Unidos, terá de agir”, afirmou.
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